Dimensão econômica da crise

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O atual governo relutou até onde pode para admitir a crise, suas proporções e os efeitos que já estava causando à economia e à própria sociedade. O tamanho do ajuste fiscal proposto foi o reconhecimento da gravidade da crise e, ao mesmo tempo, da barbeiragem na condução da política econômica. Sem ter formação especializada na área, é possível perceber erros primários cometidos pela equipe econômica. Basta ver também o amadorismo na formulação e negociação do ajuste fiscal.

A dimensão mais imediata da crise é inegavelmente econômica. Refere-se, no plano mais amplo, ao modo como a sociedade global de mercado está organizado e as possibilidades de inserção que oferece aos países emergentes. Refere-se também à incapacidade de tal sociedade de dar respostas aos problemas humanos globais, como a pobreza, a fome, a desigualdade social e as questões ambientais.

No caso especificamente brasileiro, a crise econômica possui atenuantes próprios. A questão de fundo diz respeito ao esgotamento do modelo de desenvolvimento baseado na lógica da produção e consumo. O incentivo governamental ao consumo desordenado conduziu, entre outros efeitos negativos, ao endividamento das famílias. Quando se tem em mente o alto índice de inadimplência no cartão de crédito e no cheque especial, com juros estratosféricos, conclui-se, também por esta razão, porque o Brasil está falido.

Mas a dimensão econômica da crise que mais nos indigna, como cidadãos, é, por um lado, a alta carga tributária que pagamos; somando-se todos os impostos chega-se ao patamar aproximado de 44%. Por outro, presencia-se cotidianamente a inoperância (ineficiência) do Estado para dar conta dos serviços básicos.

Deste modo, pagamos altos impostos e os serviços públicos essenciais (educação, saúde, moradia, segurança e transporte) geralmente não são de boa qualidade. Isso nos leva a pensar numa dupla direção: na necessidade de redefinição do modelo de desenvolvimento e no tamanho e nas funções do próprio Estado. Uma coisa parece certa, ninguém mais está disposto a pagar cada vez mais impostos e ter cada vez menos serviços de pouca qualidade.

Contudo, tanto a redefinição do modelo de desenvolvimento (social e humano) como a discussão acerca do tamanho do Estado exigem um pacto político mínimo. Tal pacto, baseado numa visão republicana, vai muito além do que a disputa político-partidária fraticida, que tem dominado o sistema presidencialista brasileiro das últimas décadas. Enquanto o “presidencialismo de coalizão’ degenera cada vez mais a política, carecemos do debate acerca das grandes reformas e sobre o projeto de nação.

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