A política como solução da crise econômica

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Com este título dou continuidade ao assunto tratado no Blog anterior. Inicialmente não havia pensado em prossegui-lo, pois tinha planejado falar da dimensão moral da crise atual. Contudo, ao ler a coluna que Antônio Delfim Netto escreveu nesta semana (10/11), no Valor Econômico, fui levado a mudar de ideia. Sua matéria intitula-se “Só o político pode salvar o economista”. De que político se trata? Que tipo de salvação almeja o referido autor? Duas ou três coisas precisam ser ditas sobre estas perguntas.

Primeiro, a definição que ele oferece de “sociedade civilizada”, alicerçando-a em três pilares: na liberdade de iniciativa, na crescente igualdade e na relativa eficiência produtiva. Liberdade, igualdade e desenvolvimento econômico descortinam então uma ideia minimamente desejável de sociedade a ser buscada. Alcança-la não é fruto de mágica e nem de soluções mirabolantes, mas sim resultado de um caminho “longo e pedregoso”, cujo percurso exige paciência e persistência. A busca por tal sociedade precisa ser inteligente o suficiente para saber aproveitar as experiências históricas e os conhecimentos produzidos. Inclusive, deve desenvolver a capacidade de aprender com os próprios erros cometidos pelos antepassados.

Segundo, a construção da sociedade civilizada não é um problema econômico, mas sim político, de convencimento da sociedade para a escolha de líderes adequados, virtuosos e eficientes, capazes de protagonizarem as mudanças necessárias à direção da sociedade desejada. Aqui é preciso ser mais explícito e enfático do que o próprio Delfim: a escolha do caminho que aponte na direção de uma sociedade desejável (civilizada) é um ato político sustentado pelo processo formativo e educacional da própria sociedade, especialmente, das novas gerações. Ou seja, o político só pode salvar o econômico desde que ancorado na educação dos seres humanos.

Por fim, a educação do político como constitutivo da condição humana e social exige, no caso brasileiro, uma profunda reforma política. Tal reforma precisa ser capaz de aprofundar o sentido e os limites da democracia representativa, propiciando a formação de uma coalizão majoritária estável, que rejeite os vícios do presidencialismo de coalizão. Portanto, a educação do político implica tornar o sistema político brasileiro minimamente eficiente e confiável.

Mas, a educação do político a que me refiro não pode se restringir somente ao debate sobre o sistema de governo e a reforma partidária a ele vinculado. Deve ser algo mais abrangente, mais profundo, que toque na democracia como forma de vida e não só como forma de governo. Compreendida nestes termos, como um valor universal, a democracia não é obviamente obra da sociedade de mercado e nem das formas capitalistas de vida. O próprio Delfim revela-se sabedor da condição histórica do capitalismo, quando afirma que ele [o capitalismo] é “apenas um instante histórico na busca continuada da sociedade civilizada a que o homem aspira”. Talvez pudéssemos afirmar, como contraponto ao Delfim: o capitalismo é um instante histórico que se mostra cada vez mais imperfeito, porque acentua o individualismo e a desigualdade social.

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