A corrupção não é coisa só do político profissional

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Cada vez mais se escancara a intensidade e veemência com as quais a corrupção se tornou uma forma sistemática de governo, alimentando a eleição de grupos políticos e sua permanência no poder. A vida pública de personalidades políticas desmorona-se como um castelo de cartas: rapidamente vira escombros. Diante deste quadro não devemos deixar de nos perguntar o que permite que a corrupção tome tais proporções e intensidade? E, por que as pessoas parecem não mais se importar tanto com isso? Por que há a banalização da corrupção e certa indiferença das pessoas?

Este questionamento leva a pensar na dimensão cultural da corrupção, ou seja, no modo como ela se infiltra na vida cotidiana das pessoas, tornando-se forma de vida. Com isso não se quer dizer, para evitar mal-entendido, que todas as pessoas são corruptas. Há inúmeros exemplos cotidianos que mostram o quanto ainda existem pessoas honestas, que assumem o respeito pelo outro e a dignidade como valor universal. Tais pessoas acreditam na moralidade das ações humanas, tomando-a como principal antídoto contra a corrupção pessoal, social e política. São pessoas comuns que sem saber justificar teoricamente a moral, agem moralmente, dando exemplo de vida ao melhor dos ilustrados.

Os meios de comunicação informam sobre inúmeros casos de honestidade que deixariam muitos políticos de face rosada, quando a ética ainda impera na democracia representativa. É de se estufar o peito e de se encher o coração de lágrimas, quando se ouve, por exemplo, que um desempregado, mesmo passando por necessidades urgentes, devolveu ao dono a carteira, deixando intocável o dinheiro que nela havia. Em situação semelhante, quando uma pessoa de posse e prestígio faz muitas ações de humanidade, no anonimato, sem ruído midiático e repercussão pessoal. São atos de generosidade que mostram o quanto a sociedade pode ser diferente, com mais solidariedade e menos competição selvagem.

Mas, ao lado deste procedimento honesto há inúmeras outras situações, nas quais os outros são simplesmente instrumentalizados em nome de interesses próprios e egoístas. São as situações mais simples possíveis, nas quais se infringem regras mínimas de convivência, como furar a fila ou cruzar o sinal vermelho. No cotidiano da sociedade de competição desregrada, o individualismo é alimento pela lei de Gerson, que obriga levar vantagem em tudo. Ora, é justamente aí que começa a cultura da corrupção, que alimenta modos de vida e termina por desaguar na corrupção social e política, assumindo grandes proporções econômicas e morais. Nível em que ocorre a aliança entre poder político e poder econômico, dilapidando o bem público.

A formação da cultura ética baseada na generosidade, honestidade pessoal e no respeito à coisa pública é um processo lento, complexo e difícil. Envolve pessoas, instituições e programas educacionais. Contudo, é na miudeza da vida, na bagatela das coisas, como se diz, que fundamentalmente se decide a formação do caráter e se prepara cidadãos exigentes e governantes virtuosos. Muito disso depende da postura do sujeito individual, pois não há ética possível sem que o sujeito tenha a disposição de se colocar na situação, avaliar honestamente seu próprio comportamento, levando em consideração a perspectiva do outro. Este exercício de tornar-se juiz de si mesmo os pensadores antigos, principalmente os estoicos, chamavam de exame de consciência. Contudo, isso parece desinteressar à sociedade contemporânea corrompida, sobretudo à classe dos políticos corruptos.

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