Aquecimento global: para além do Acordo de Paris 2015

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Lideranças políticas de mais de 150 países do mundo se reuniram em Paris, na semana passada, para a Conferência de Clima da ONU (COP 21). O tema principal em pauta foi o problema do aquecimento global e, com ele, o aumento preocupante da temperatura do planeta. Se nenhuma medida concreta for tomada, as catástrofes ambientais serão devassadoras, já nas próximas décadas: elevação do nível do mar, enchentes, desertos, destruição (morte) de inúmeras espécies, falta de água potável, aumento da fome e pobreza.

A causa imediata do aquecimento global é a produção de gases poluentes que provocam a elevação do efeito estufa. Historicamente, os Estados Unidos foram o principal produtor de tais gases e, ao mesmo tempo, o país que mais resistiu ao enfrentamento do problema. Negou-se, por exemplo, a assinar o protocolo de Kyoto (1999). Atualmente, a China assumiu a dianteira, ultrapassando-o na produção de gases poluentes.

Qual é a grande expectativa do Acordo de Paris? O que nele se pode avançar em relação às Conferências anteriores? Um dos grandes avanços seria tornar o Acordo legalmente vinculante, ou seja, atribuindo-lhe força de lei e, comisso, obrigando países, principalmente os desenvolvidos, a diminuírem a produção dos gases poluentes. Tal decisão depende de disposição política. Contudo, há muitas resistências da própria China e também dos Estados Unidos. O Congresso americano, por exemplo, já se pronunciou que não endossará os resultados do Acordo, caso sigam na direção acima indicada.

Há uma questão de fundo que está na base do aquecimento global e que não recebeu a devida atenção na COP 21: qual é a causa da produção excessiva de gases poluentes? Até agora, as ações governamentais e os próprios avanços no Acordo de Paris estão atacando somente os efeitos, negligenciando a causa principal. Por isso, suas medidas são paliativas, mantendo o paciente na CTI. Todos estão de acordo com a gravidade da situação, mas os resultados são pífios e dificilmente avançarão significativamente nos próximos anos. Acontece isso porque não se toca no problema nuclear, a saber, no modelo de desenvolvimento atual e às formas de vidas que ele induz.

O modelo de desenvolvimento econômico em vigor no mundo, que domina e orienta todos os países, é a principal causa do aquecimento global. Baseado na lógica da produção e consumo e na maximização do lucro, provoca um uso irracional dos recursos naturais. Gera, além da destruição catastrófica do meio ambiente (vide o caso brasileiro de Mariana – MG), a concentração de renda e a injustiça social. Tal modelo incentiva formas de vida consumistas que potencializam não só o próprio desenvolvimento incontrolado do mesmo modelo, como conduzem à dilapidação da natureza. O círculo é visivelmente vicioso: para crescer precisamos produzir e para produzir precisamos consumir. Mas, afinal de contas, consumir para quê? Crescer para onde?

O grande desafio é a construção de um modelo que seja capaz de aliar desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano. Isso exige, como defende o pensador indiano Amartya Sen, pensar o desenvolvimento como liberdade e não só como fonte de lucro e renda. Uma reflexão adequada sobre a liberdade como núcleo da condição humana exige repensar as nossas relações, entre seres humanos e com o mundo ambiente.

A ciência moderna e, com ela, o desenvolvimento tecnológico, potencializou a soberba e a ganância humana, contribuindo decisivamente para colocar de maneira equivocada o homem no centro do universo. O descontrole de sua onipotência (ganância) paga o preço da destruição do planeta. Isso não é previsão apocalíptica, considerando o modo como estamos nos tratando mutuamente e como o meio ambiente está sendo destruído impiedosamente: água, solo, ar.

As mudanças macro acontecem quando encabeçadas por mudanças radicais nas formas individuais de vida. Por isso, reforma econômica e reforma política sem reforma moral e ética, ou seja, sem mudança de atitude na vida cotidiana das pessoas, não surtem o efeito esperado. Uma das coisas mais difíceis para o ser humano é a mudança em seus hábitos de vida. Estaríamos então dispostos em assumir formas de vida mais simples e menos luxuosas, mais modestas e menos esbanjadoras? Seríamos, por exemplo, capazes de conter nossos desejos atiçados de consumo, renunciando ao número extravagante de sapatos, camisas e outras vestimentas em nosso guarda roupa?

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