A retidão do caráter não é obra só de instruídos

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O ensinamento das virtudes morais básicas, caso não seja bem entendido, pode escorregar facilmente para o intelectualismo moral. Neste sentido, todo o intelectual da moral se auto-imunizaria da maldade humana e estaria livre da corrupção de caráter. O filósofo da moral seria o guardião da moralidade. O homem comum, propenso ao vício! De outra parte, isso levaria à conclusão que a ausência de estudo seria uma condição propícia para os vícios de caráter.

Deste modo, a figura do intelectual esclarecido seria o modelo típico do homem virtuoso e, o homem comum, o exemplo do caráter vicioso. Às vezes não se consegue nem perceber o quanto estas ideias povoam inconscientemente o imaginário das pessoas. Mas podemos aceitar esta correspondência direta entre ilustração e ação virtuosa? Justamente o esclarecimento racional não pode tornar o sujeito ainda mais ardiloso e perverso?

A confusão entre esclarecimento racional e ação virtuosa pode se mostrar altamente perigosa, pois a moralidade das ações, o discernimento mais elementar entre vício e virtude, entre justo e injusto não depende exclusivamente do grau de esclarecimento do ser humano. O pensador francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) debateu-se com este problema ao responder negativamente à pergunta posta pela Academia de Dijon, se o desenvolvimento das artes e das ciências haviam provocado o melhoramento moral da humanidade. Frequentador assíduo dos salões parisienses durante algum tempo, presenciou factualmente o contrário: que ilustres homens das letras e cientistas tornavam-se dissimulados e maldosos na mesma proporção em que aumentavam seu conhecimento e sua ilustração.

Deste modo, se não há uma correspondência direta entre ilustração e virtude, então o mais esclarecido pode ser mal caráter, enquanto o mais simples pode ser de uma correção e generosidade sem igual. Isso mostra que pode existir um hiato entre a capacidade de julgamento moral e a ação moral propriamente. Neste caso, uma coisa é julgar, outra é agir: alguém pode formular um juízo moral adequado, mas nem por isso sentir-se motivado a agir moralmente. Outro filósofo, desta vez o alemão denominado Immanuel Kant (1724-1804), concebeu a diferença ou tensão entre julgar e agir como a verdadeira pedra filosofal (Stein der Weisen). Encontrar a mediação desta tensão seria então um dos problemas mais difícil da formação moral.

Trocando em miúdos, não é suficiente, à formação moral, somente querer ensinar a virtude. Ou seja, não se aprende agir moralmente somente estudando as regras morais e as normas de conduta. É preciso algo a mais, que deve vir acompanhado pelos exercícios e práticas morais. Comprovadamente, a criança e o adolescente aprendem melhor sobre a importância de respeitar os mais velhos, se forem inseridas pedagogicamente em situações sociais onde o sofrimento do idoso aparece de maneira mais clara. Estimuladas a auxiliarem concretamente um idoso, podem representar para si mesmas com mais clareza o significado da velhice. O caso típico é que uma boa teoria não basta se não for acompanhada por uma prática correspondente.

Neste sentido, a convivência dialógica com o outro é um princípio indispensável para conhecer sua condição e respeitar seu sofrimento. Dispor-se a colocar-se na situação do outro, compartilhando seus sofrimentos e suas alegrias é uma das coisas mais difíceis à ação humana. Este ato de abertura em direção ao outro recebe muitos nomes, como compaixão, generosidade ou solidariedade. Mas tudo isso exige reciprocidade, pois o ponto de vista moral não é um caminho de mão única.




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