Importância da formação moral

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Se, como dizíamos em reflexões anteriores, a corrupção não é coisa só de políticos e pode tornar-se uma forma sistemática de vida, o que fazer para combatê-la? É preciso reavivar o sonho iluminista da educação. Intelectuais, filósofos e pedagogos, desde a antiguidade, apostaram com firmeza no potencial emancipador da educação. Foram grandes idealistas que sempre viram na educação uma das formas mais concretas de melhoramento da humanidade.

Sócrates, por exemplo, no mundo grego, acreditou na práxis dialógica, levada adiante pela conversação livre e pública com seus interlocutores, como forma de desconstruir os excessos e enganos inerentes à mera opinião (doxa). Sem que os aspectos dogmáticos pré-conceituosos da mera opinião sejam enfrentados, não há possibilidade de formação moral do caráter. Da crítica permanente a este aspecto perigoso da doxa depende inclusive o fortalecimento do ideal de uma sociedade democrática.

Mas a doxa não é só fonte do erro e dos vícios de caráter. Se fosse assim, toda a moral popular deveria ser condenada ao mero ostracismo. Sócrates sabia que o problema da corrupção não tinha só origem política ou social, pois residia nas profundezas da alma humana. Por possuir uma vontade fraca, a condição humana está propensa ao mal, deixando-se corromper facilmente em muitas circunstancias. Somente a virtude, como força da alma, seria capaz de aplacar a maldade humana, tornando a corrupção do caráter um problema moral a ser enfrentado.

Como enfrentá-la? Sócrates acreditava na formação moral como forma de correção do caráter. Para ele, a virtude, como sopro vital da alma, estava ao alcance de qualquer ser humano. Depositava na formação pela virtude a força capaz de conter os vícios de caráter. Portanto, sem que o ser humano fosse capaz de enfrentar a si mesmo, de fazer o trabalho permanente sobre si mesmo, visando dominar seus próprios vícios, não haveria vida moderada e, sem ela, excelência nas ações. É por isso que a ética exige um duplo movimento: o sujeito precisa envolver-se na situação considerar o ponto de vista dos outros.

Com seu procedimento dialógico, Sócrates acreditou na transformação da doxa (mera opinião) e na possibilidade de seu melhoramento. Com isso, permitia ao ser humano dominar seus próprios vícios, oriundos de suas paixões desregradas. Portanto, dominar as paixões pelas virtudes é o núcleo de sua formação moral. Este domínio virtuoso de si mesmo deveria estar presente não só na ação política, mas no exercício de qualquer profissão e deveria ser o núcleo constituinte da sociabilidade humana.

Nos nossos dias, a ampliação desmesurada da corrupção, infiltrando-se em todos os poros da vida social, exemplifica o enfraquecimento da virtude, sinalizando até mesmo o seu desaparecimento. Sedentos por dinheiro e poder, governantes corruptos não medem a consequência de seus atos, pilhando inescrupulosamente a coisa pública. Agindo assim, tornam a virtude uma terminologia obsoleta, tanto do ponto de vista moral como político. Devemos realmente ceder o adeus à virtude ou precisamos nos esforçar para recriá-la? Em que direção isto seguiria?

A boa tradição pedagógica, sobretudo aquela que conseguiu visualizar o nexo estreito entre teoria política e teoria educacional, ou seja entre democracia e educação, apostou na educação moral como forma eficiente de assegurar os ideais republicanos. Neste caso, a autocrítica da educação contemporânea exige romper com o modelo do gerenciamento empresarial e, ao mesmo tempo, com sua sujeição ao saber técnico especializado, retomada o nexo entre democracia e educação moral. Educação democrática precisa ser, como ensinaram cada um ao seu modo, Rousseau e Dewey, educação humanista.


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