A espiritualidade como fenômeno antropológico

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Tratarei hoje à tarde e amanhã o dia todo, no Curso de Especialização sobre Espiritualidade, promovido pelo ITEPA (Instituto de Teologia e Pastoral), do tema da espiritualidade no mundo contemporâneo. Diante do avanço progressivo do consumismo, baseado na aquisição de bens descartáveis, provocando a superficialização das formas de vida, faz ainda sentido falar de espiritualidade, no mundo contemporâneo? De que espiritualidade se trata?

A espiritualidade não é só um fenômeno religioso e, por isso, não deve ser monopólio desta ou daquela religião e, menos ainda, de uma instituição religiosa particular. Enquanto fenômeno religioso, a espiritualidade vincula o ser humano à divindade. Daí que Santo Agostinho, um dos grandes teólogos cristãos, deriva religião de religare, pensando justamente na ligação entre ser humano e Deus. Portanto, do ponto de vista religioso, a espiritualidade refere-se a crença em uma força transcendente, no modo como o ser humano se relaciona com ela e como tal força interfere na ordem humana das coisas.

Mas, e quem não acredita nesta força transcendente, pode dizer-se dele que não possui espiritualidade? Eis aí um problema difícil, que divide crentes e não crentes e que, dependendo do modo como for encarado, pode transformar a espiritualidade em monopólio exclusive das religiões. A história ocidental comprova isso, pois ao longo de toda a Idade Média e a também durante parte da Modernidade o fato de não ser considerado como Cristão e, especificamente, Católico, fora tido como sinônimo de heresia, com consequências físicas, sociais e culturais desastrosas.

Mas o que dizer da espiritualidade no mundo contemporâneo, plural e complexo, onde predomina não só a liberdade de escolha da crença religiosa, como também a possibilidade de não se fazer escolha alguma entre as religiões existentes? Como, por exemplo, conviver espiritualmente com pessoas que não acreditam em Deus ou que preferem manter relação direta com a divindade, sem a intermediação das instituições religiosas?

É a pluralidade cultural do mundo contemporânea que exige abertura da postura religiosa e, simultaneamente, a ampliação do significado da própria espiritualidade. Se não é um fenômeno exclusivamente religioso, a espiritualidade é antes de tudo um fenômeno antropológico. Mas, o que significa dizer que ela é um fenômeno antropológico?

No sentido antropológico, a espiritualidade é antes de tudo uma forma de vida, diretamente vinculada ao conjunto de práticas e exercícios que o ser humano faz diariamente, visando melhorar sua existência e o próprio mundo em que vive. Portanto, enquanto um fenômeno antropológico, a espiritualidade possui uma dimensão profundamente ética, que pode se vincular, mas não necessariamente, à religião. Disso resulta que nem todo o comportamento religioso é de per se ético, mas uma forma genuína de espiritualidade deve sê-lo.

O exame de consciência é, por exemplo, um modo típico de espiritualidade anterior ao Cristianismo, que fora reelaborado por ele e inserido em sua estrutura teológica. Ser espiritual significa, neste sentido, ter a coragem de se pôr a prova todos os dias, pensando pela manhã o que se vai fazer durante o dia, da melhor forma possível, ou seja, visando o bem. Depois, durante à noite, ao colocar a cabeça no travesseiro, meditar novamente sobre o que foi feito, examinando em que medida se tornou melhor a si mesmo e, também, aos outros com que travou relações.

Mas, possui ainda lugar um tipo de espiritualidade como esta no mundo cada vez mais competitivo, materialista e consumista? Tal forma de espiritualidade não se parece como uma forma de vida obsoleta e ultrapassada?


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