Educação e Religião no mundo urbano contemporâneo

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe
O ser humano cultivou de maneira mais simples sua interioridade no relacionamento com seus semelhantes e com o entorno natural e social em sociedades eminentemente agrárias. Tais sociedades não contavam ainda com o gigantesco desenvolvimento tecnológico ocorrido posteriormente. Este fora o modelo de sociedade vigente em nossa região, Norte do RS, até 4 ou 5 décadas atrás.

O cultivo da interioridade muda completamente em sociedades plurais e complexas, marcadas pela tecnologia, globalização e por formas de vida cada vez mais individualistas. Trata-se do modelo da sociedade global de mercado em vigor atualmente.

Talvez não tenhamos conseguido compreender ainda, com a profundidade necessária, o que esta passagem de um modo mais simples de vida para outro muito mais complexo exige e as implicações que isso traz para a ação educativa e, principalmente, à tarefa do educador. Para tornar tal passagem mais visível entre nós, bastaria comparar a diferença entre uma criança indo à escola a quatro décadas atrás com aquela que frequenta a escola da atualidade, localizada na cidade e movida pela tecnologia digital.

A abordagem da forma urbana de vida na perspectiva da espiritualidade remete, em última instância, para a questão de saber quem é o ser humano que vive no mundo urbano e de que forma ele vive. Trata-se de uma difícil pergunta que a cultura humana sempre se fez e que, no entanto, não pode dar a ela, do ponto de vista filosófico, uma resposta definitiva.

O pensador alemão Immanuel Kant colocou, no início da Modernidade, a questão “quem é o homem?” na origem das perguntas sobre o conhecimento, a moralidade e a esperança religiosa. Ou seja, segundo ele, as perguntas “o que posso conhecer?”, “o que devo fazer?” e “o que me é lícito esperar?”, dependem, em última instância, da própria pergunta: “quem é o ser humano?”.

Para tratar da pergunta quem é o ser humano que vive no mundo urbano, influenciado pelo modo de ser da cidade, da tecnologia e da sociedade de consumo, precisamos considerar que ele vive mediante uma possibilidade infinita de ofertas, tanto mercadológicas (bens materiais de consumo) como culturais e religiosas.

Isso significa dizer, em outros termos, que a religião cristã e, de modo especial, a católica, não possui mais o monopólio exclusivo, como possuía em outros tempos, para influenciar o modo de ser religioso. Também significa dizer, do ponto de vista educacional, que a escola não é mais a referência exclusiva do processo formativo das novas gerações. Pois, ela está inserida no contexto urbano altamente tecnológico, caracterizado pela enorme circulação de informações e imagens.

Hoje, mais do que em épocas anteriores, devido à tecnologia digital, à Internet e ao desenvolvimento das redes sociais, criam-se grupos informais de relacionamento, principalmente entre os adolescentes e jovens. Tais grupos constroem o significado de suas vidas à margem de poderosas instituições sociais como Família, Escola e Igreja.

Sob esse aspecto, as próprias instituições educadoras e os agentes que delas fazem parte precisam se preparar da melhor forma possível, abrindo-se reflexivamente, para compreender os novos tempos e as questões que eles geram, bem como, especificamente, os novos modos de vida que deles emergem. Referenciais como a formação do pensamento crítico, a elaboração de uma mentalidade alargada e o desenvolvimento da capacidade imaginativa são requisitos indispensáveis para enfrentar a pluralidade cultural contemporânea e respeitar a diferença de todos os concernidos.

Se não há mais atualmente segurança absoluta de valores e se nossas crenças e convicções devem ser confirmadas todos os dias, então também precisamos ser capazes de reinventar nossa própria espiritualidade, atualizando-a de acordo com as exigências dos novos tempos. O que significa reatualizar nossa espiritualidade? O que significa reinventar o sentido de instituições clássicas como Família, Escola e Igreja?




Claudio A. Dalbosco UPF - CNPq



Leia Também Falecimento de titular de firma individual causa a extinção da execução fiscal Treinamento psicológico e o efeito no grupo A ciência como ferramenta para a sabedoria Quebra-molas são permitidos, “em casos especiais”