Modos urbanos de vida e reinvenção da espiritualidade

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O mundo urbano e tecnológico provoca a tendência crescente de secularização de temas religiosos e as religiões que resistem a tal secularização são levadas ao menos a ter que reinventarem sua espiritualidade, criando diferentes maneiras de mantê-la viva.

A questão da espiritualidade, num sentido mais amplo, continua ligada à pergunta pelo modo como cada ser humano quer conduzir sua vida e, mais precisamente, com o questionamento sobre se o modo como se está conduzindo é o mais apropriado. Neste sentido, a espiritualidade humana, tendo que se recriar diante do mundo urbano e tecnológico, marcado pelas formas seculares de vida, preserva ainda seu sentido clássico, qual seja, de estar profundamente colado com a prática de vida e com o permanente questionamento sobre tal prática.

Na tradição estoica antiga, sobretudo, com Sêneca, durante o Império Romano, no primeiro século da Era Cristã, este questionamento assumiu a forma do exercício diário do exame de consciência. A espiritualidade tinha a ver aí com as diversas tecnologias de si e seus respectivos rituais diários que o sujeito desenvolvia para cuidar de si mesmo, visando construir uma vida bem-sucedida.

Sobre este tema, é interessante a reflexão do filósofo francês Michel Foucault (A Hermenêutica do Sujeito) que, opondo a noção cartesiana de verdade ao pensamento da espiritualidade, desenvolve uma apropriação criativa do pensamento estoico antigo, de modo especial, do pensamento de Sêneca. Com suas reflexões, Foucault amplia e reatualiza a noção de espiritualidade, mostrando que seu sentido ampliado extrapola a dimensão religiosa.

Se o modelo cartesiano de verdade se limita ao ato mental de representação que o sujeito cognoscente faz sobre o objeto a ser conhecido, a noção de verdade que brota do saber de espiritualidade exige que o próprio sujeito se coloque inteiramente na situação. Com isso, a verdade não é só um problema lógico, mas talvez antes de tudo um problema ético.

Deste modo, a verdade assume uma conotação espiritual mais ampla, não se restringindo apenas ao procedimento epistemológico (só ao ato de conhecimento). Ela se relaciona diretamente com a prática de vida e o cultivo que o sujeito deve fazer de si mesmo para conduzir sua vida da melhor forma possível. Verdade possui o sentido ético de tomar a si mesmo a sério e buscar refinar moralmente sua postura diante do mundo e de si mesmo.

Não existe, neste sentido, uma verdade absoluta, da qual o sujeito poderia se apropriar, pois a verdade é resultado de uma racionalidade processual e falibilista que, por isso mesmo, precisa ser constantemente recriada e reinventada. Aqui ganha força a coragem exigida a todo o sujeito para se dispor a modificar e abandonar suas crenças, quando estas são refutadas ou mostram-se obsoletas.

Mas, o mais difícil e doloroso ao ser humano é a abertura para modificar suas velhas crenças, tendo de abrir mão de certos hábitos e costumes. Daí a importância da educação transformadora, que crie as condições para esta abertura de espírito.

A espiritualidade, neste sentido mais profundo, não é algo só emotivo, mas refere-se à capacidade de abertura para transformar-se a si mesmo, em cada pequeno gesto e na simplicidade das palavras. Transformando-se a si mesmo, o sujeito, como não é uma ilha, influencia na transformação dos outros.

Claudio A. Dalbosco UPF - CNPq

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