Espiritualidade como cuidado

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Continuo ainda às voltas com o sentido antropológico de espiritualidade. Tal sentido se acentua quando as religiões, no mundo contemporâneo e plural, veem-se questionadas, sendo obrigadas a justificar ainda mais sua doutrina. Não basta ser crente e ter fé, é preciso optar por uma prática de vida comunitária e, depois do Iluminismo moderno, é preciso justificar suas crenças. Caso contrário, a religião pode virar só dogma e se reduzir ao fundamentalismo religioso, tornando-se inimiga da democracia.

Uma forma influente de se pensar a espiritualidade em seu sentido antropológico foi oferecida pelo pensador alemão Martin Heidegger. Ele escreveu um dos livros mais marcantes do século XX, intitulado Ser e Tempo, no qual concebe a espiritualidade como disposição humana, identificando-a como cuidado (Sorge).

O cuidado é o principal modo ontológico do ser humano (ser-aí) e, por isso, significa, também, seu modo de abertura para as questões mais candentes e atuais. Deste modo, a questão ambiental e a felicidade da vida humana são temas espirituais por excelência, porque emergem do questionamento conduzido pelo caráter de abertura que o ser humano constrói no relacionamento com o mundo, os outros e consigo mesmo.

Na concepção heideggeriana, o ser humano é um ser-jogado-aí que caminha para a morte. Isso é chocante, duro de aceitar, mas é nossa condição humana. Não escolhemos nascer e nem queremos morrer e, contudo, nascemos e vamos morrer, todos! Mas, é neste espaço entre o nascimento e a morte que todo o ser humano “tem que ser”. Ou seja, precisa afirmar-se como pessoa e ser reconhecida como alguém digno de valor.

O cuidado é justamente esta força, este modo próprio e singular de ser, que nos dá natalidade e, por isso, nos faz sentirmos em casa. Nos torna forte o suficiente para enfrentar o problema da morte, compreendendo-o como a razão de nossa própria existência. Desta maneira, o cuidado é a forma de vida que nos auxilia a buscar permanentemente o sentido de nossa finitude. Impõe-nos o fato aparentemente trivial, mas altamente significativo, de que o sentido genuíno de nossa existência só é dado na companhia com os outros. Como afirma Heidegger, cuidado é Mitsein, ou seja, ser com os outros e, por isso, é antítese do individualismo.      

A noção de espiritualidade como cuidado carrega consigo muitas significações pedagógicas e formativas. Enquanto modo de ser, refere-se à atitude serena, construída lentamente, mas não sem sofrimentos, de enfrentar os acontecimentos da vida. Serenidade exige tempo e paciência, opondo-se à pressa que nos impele a estar sempre querendo fazer algo, desesperadoramente; exige tranquilidade da alma contra a agitação tecnológica atual, que nos consome diariamente, a todo instante.

O cuidado é a postura soberana do sujeito que sabe criar seu próprio tempo e, ao poder dizer não aos apelos frenéticos da sociedade de consumo, torna-se dono de seu próprio destino. Como serenidade, o cuidado é simplicidade, conduzindo o sujeito a dar sentido à vida nas pequenas coisas que observa e faz. É, em síntese, a consciência da fragilidade da condição humana e a crença de que a vida ganha sentido em grupo, com os outros.

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