Ser e Tempo e a filosofia

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Ser e Tempo é uma das obras filosóficas mais importantes do século XX. Tratou, com profundidade, de vários problemas filosóficos, inovando o próprio sentido da filosofia, especialmente de sua disciplina principal, a Ontologia. Contudo, falar de Ser e Tempo e de Heidegger talvez não seja muito aconselhável hoje em dia, principalmente, depois da publicação recente dos Cadernos Negros (Schwarze Hefte) e da repercussão que está provocando, mundialmente, não só na Alemanha.

Esta publicação recente comprova os vínculos mais profundos de Heidegger com o nazismo e o quanto seu pensamento, inclusive o próprio Ser e Tempo, está perpassado por inclinações totalitárias, deixando claro suas convicções antissemitas. Isso tudo parece ser incontestável, sobretudo, depois da publicação dos Schwarze Hefte. Contudo, deve-se condenar, em bloco, todo o pensamento de Heidegger? Deve-se ignorar seu projeto de uma nova ontologia, esboçada em Ser e Tempo? Não tem mais sentido e, portanto, não diz mais nada, para nossa atualidade, o que ele pensou sobre a condição humana? Uma obra outrora eivada de espiritualidade deve ser agora deixada de lado?

Se não se deve condenar em bloco, como um todo, as ideias de nenhum pensador; isso vale também para Heidegger. É tarefa do pensar filosófico em geral, fazer a crítica da tradição, das ideias dos pensadores, passados e atuais. Mas a crítica implica, em seu sentido originário, um tríplice movimento: negação, preservação e superação. Esta é a ideia da Aufhebung alemã: suspender, preservar e elevar. São três momentos interligados e a crítica fica capenga se ignorar qualquer um deles. Neste sentido, por mais totalitário que tenha sido um pensador, há algo de suas ideias que pode ser preservado e, com isso, também possível de ser elevado.

Tal é o caso de Ser e Tempo. Esta obra inova o pensamento filosófico contemporâneo em várias direções. A primeira e mais importante inovação repousa na própria ideia de filosofia. Heidegger é um pensador sisudo e por mais hermética que seja sua linguagem acadêmica, busca fazer da filosofia um modo de pensamento da condição humana. Ou seja, segundo ele, a filosofia é um exercício espiritual sobre a condição humana em sua existência.

Há em seu pensamento, em certo sentido, uma concepção de filosofia como forma de vida, que se ocupa com o modo prático de o ser humano ser-no-mundo, questionando-o. Daí sua preocupação constante com temas cruciais à condição humana, como cuidado, angustia, morte, liberdade, temporalidade, historicidade, entre outros. Ele faz de cada um destes temas objeto de longas reflexões em Ser e Tempo. Com base em tais conceitos, ele funda uma nova ontologia, ou seja, esboça uma nova concepção de filosofia.

Mas, há algo disso tudo, para além do significado técnico destes conceitos, que diz respeito ao ser humano comum, não sendo, por isso, só objeto da reflexão do filósofo profissional? Ou seja, estes conceitos nos tocam, mexendo com nossa vida diária e cotidiana? Penso que sim e isto numa dupla direção: como crítica à vida diária, cotidiana, de todo o ser humano e como problematização da condição humana em geral.

Se isto procede, então Heidegger está preocupado com o modo como nos ocupamos diariamente conosco mesmos, com os outros e com todas as coisas que nos cercam. De outra parte, ele está preocupado com a condição que diz respeito a todos os seres humanos, uma condição que pode variar de um ser humano para outro, mas que todos a possuem. Sem termos determinada condição, independentemente de que condição seja, não seríamos humanos. Ora, este é justamente o problema: de que condição se trata e que forma ela assume, na atualidade, marcada por uma forma de vida plural, tecnológica e global?

Preocupar-se com a vida cotidiana e com a condição humana são, portanto, dois temas de Ser e Tempo que transformam a filosofia na reflexão sobre a existência humana, tornando-a, por isso, forma de vida. Mas, em que consiste a vida cotidiana? O que caracteriza a condição humana, enquanto existência? São dois temas que se cruzam e que estão na base da nova ontologia de Heidegger.

Contudo, se quisermos compreender estes dois polos, vida cotidiana e condição humana, precisamos começar pela noção de ontologia, buscando tornar acessível seu significado, mesmo para aqueles que não possuem formação filosófica. Este será o tema do curso que ministrarei, no próximo semestre, aos meus alunos do Curso de Filosofia da UPF. Também será, resumidamente, o tema de meus próximos comentários neste espaço semanal.


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