Especificidade da Filosofia

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Heidegger, como grande pensador, desenvolveu sua própria concepção de filosofia e colocou a ontologia em seu centro. Mesmo que tenha pensado de maneira cuidadosa, dedicado muito tempo para escrever suas aulas, ainda assim não escapou de ser criticado por falta de clareza e obscuridade de pensamento. Esta objeção é dirigida não só a ele, mas à filosofia em geral. Muitas dificuldades que a filosofia enfrenta, deve-se à natureza complexa dos próprios temas e problemas que aborda. Mas, outros devem-se ao hermetismo e preciosismo do próprio pensador.

Muitos reclamam ainda hoje da natureza da filosofia, queixando-se de que ela faz muitos rodeios para dizer poucas coisas, na maioria das vezes incompreensíveis. Os filósofos, assim soam os comentários, não vão direto ao ponto e se fecham em suas divagações. Eu tenho amigos na Universidade, de outras áreas, que dizem exatamente isso, queixando-se dos rodeios da filosofia. Mais de uma vez, comentaram sobre sua dificuldade de ler obras filosóficas, do hermetismo da filosofia e do modo prolixo empregado por certos filósofos. Devo conceder a estes meus amigos, eles possuem razão, em parte, sobretudo, quando a filosofia se torna hermética e prolixa.

Contudo, é preciso considerar, de outra parte, a própria natureza dos problemas filosóficos e sua especificidade em relação, por exemplo, aos problemas científicos. Uma grande diferença entre eles é que o problema filosófico – e estou falando aqui de um genuíno problema filosófico, como aquele referido à liberdade humana ou à morte – não possui uma resposta imediata e, menos ainda, definitiva. Não dá para aceitar, por exemplo, o juízo determinista empregado por grande parte das ciências neuronais para tratar da liberdade humana. A liberdade não se deixar “explicar” somente pela relação mente e cérebro. Assim como a morte, que continua sendo um grande mistério.

Deste modo, a natureza do problema filosófico é, de modo geral, insolúvel. Os problemas insolúveis podem ser apenas contornados; não há outro jeito, não há outra saída! Foi esta postura que Sócrates adotou, em seu diálogo com a juventude, na Atenas antiga, quando se deparou com os problemas mais difíceis, como o enigma da condição humana ou a natureza da virtude, se ela poderia ou não ser ensinada.

Neste sentido, não encontramos nos diálogos socráticos uma resposta cabal e definitiva, nem para a condição humana e nem para a ensinabilidade das virtudes. Por isso, alguns de seus diálogos, como o Eutifron e o Cármides, todos escritos por Platão, terminam inconclusos, de uma maneira aporética. Ora, a aporia é justamente o método de buscar contornar um problema cuja a solução é impossível.

Como não podemos dizer tudo e de uma única vez sobre o que é a virtude, então precisamos dizê-la aos poucos, mas, em diálogo com os outros e, mais importante, tendo sempre que refazer nossos pensamentos. Se há algo difícil para o ser humano – e isto talvez para o filósofo seja ainda mais difícil – é reconhecer seus erros e admitir seus limites. Quando não se admite o erro, a arrogância predomina sobre a humildade, afastando os seres humanos um dos outros.

Buscar contornar problemas, sem poder responde-los é próprio da reflexão filosófica, diferentemente do que acontece, na maioria dos casos, por exemplo, nas Ciências Naturais. Seu objeto de estudo e, por conseguinte, suas investigações, trata de algo empírico que, sendo “visível”, pode ser manuseado experimentalmente, em laboratório, com o auxílio direto e indispensável da tecnologia. Seus resultados são e precisam ser, deste modo, imediatos e mensuráveis.

Esta linguagem da experimentação e manipulação de objetos é estranha e mesmo complicada à filosofia e, principalmente, à educação. Não se pode tornar os alunos, por exemplo, “objeto” de investigação, embora isso às vezes infelizmente ocorra. Também não se pode operar com a ideia de mensuração, sem fazer adaptações e tomar os devidos cuidados. Se a noção de objeto possui validade quase inquestionável às Ciências Naturais, não pode ser empregada com a mesma leveza no âmbito das Ciências Humanas, especialmente, no âmbito da educação.

A pesquisa educacional faz muito uso da estatística, mas certamente não é o mesmo que é feito por um biólogo em laboratório. Por tratar do sentido da ação humana, o que conta como quantitativo para o filósofo ou pedagogo, precisa estar imediatamente vinculado ao qualitativo. Um não existe sem o outro. Tal exigência não se coloca necessariamente com a mesma intensidade para o biólogo. Para ficar na linguagem ontológica, o “ser” do filósofo e do pedagogo não é o mesmo do que o do biólogo.

Heidegger tinha plena consciência, em Ser e Tempo, da especificidade da filosofia e da natureza aporética dos problemas filosóficos. Movimenta seu pensamento, cria e justifica seus conceitos, tendo presente esta especificidade do exercício filosófico. Por isso, quando fala do Dasein (ser humano), não é do mesmo modo que um biólogo fala da vida, animal ou vegetal. O ser humano não pode ser compreendido com a linguagem da objetividade baseada na mensuração.


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