Ambiguidade do senso comum

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A luta maior de Heidegger, em Ser e Tempo, para mostrar a especificidade da filosofia, não é travada só contra o monopólio exercido, no mundo contemporâneo, pela tecnologia e pelas ciências naturais. Seu maior esforço é contra o senso comum do ser humano e sua resistência às diferentes formas de reflexão, especialmente, à reflexão filosófica. Se todo o ser humano tende naturalmente ao saber, também tende, simultaneamente, à preguiça. Isso caracteriza a ambiguidade do senso comum, que ora busca o saber e ora se acomoda.

Immanuel Kant, ainda na aurora da Modernidade já havia detectado este problema, concebendo-o como o coração do esclarecimento humano. Não é só por imposição do Estado, do governante ou das instituições, mas também, e talvez principalmente, por covardia e preguiça que o ser humano prefere viver na menoridade. É com base neste diagnóstico da condição humana que Kant formula o famoso lema do Iluminismo moderno, o sapere aude, ou seja, ter coragem de pensar por si mesmo.

Neste sentido, o senso comum é tema importante não só de Ser e Tempo, mas de toda a História da Filosofia. Saber o que ele é, como constitui a condição humana e como se relaciona com a filosofia, torna-se, deste modo, decisivo para pensar a especificidade da filosofia e, mais importante ainda, para refletir sobre o processo formativo educacional humano.

Claro, como ainda veremos, Ser e Tempo oferece um modo apropriado de compreensão do senso comum, associando-o diretamente à forma humana de ocupação corriqueira com as coisas. Heidegger não fala diretamente desta expressão, mas o que ele diz sobre o mundo da ocupação e aquilo que está à mão do ser humano, refere-se ao senso comum. A relação do ser humano com o instrumento e o mundo da manualidade é típico da postura do senso comum, constituindo sua ambiguidade.

Todos possuímos nosso senso comum, desde o filósofo mais renomado até o cientista bem-sucedido. O senso comum não é exclusividade do homem comum, daquele que nunca sentou nos bancos escolares e, por conseguinte, que não é o profissional formado pela universidade.

De outra parte, o senso comum não pode ser reduzido à cultura popular, compreendida como oposta à cultura erudita. Tal oposição não tem sentido, sobretudo, quando se toma esta última como sinônimo de verdade e, a cultura popular, como fonte do erro. O homem mais erudito não está livre de cometer o erro mais ingênuo, de dizer a maior obviedade, quando o assunto foge de sua especialidade. Do mesmo modo que o ser humano sem estudo, por meio de sua experiência de vida, pode se tornar um sábio sobre diferentes assuntos. O ser humano experimentado, sem estudo, pode fazer chocar o cientista e até mesmo o filósofo.

O problema que importa aqui, considerando o senso comum tanto do ponto de vista filosófico, como especificamente pedagógico (educacional), é seu estatuto antropológico. O que isto significa? Mais precisamente, que o senso comum é constitutivo da condição humana e, enquanto tal, é inerente a todo o ser humano, independentemente de raça, gênero, religião ou nível acadêmico.

O senso comum, como constitutivo da condição humana, ou seja, como modo próprio de ser do ser humano, de sua ação e reflexão, é profundamente ambíguo. Ele mescla, em seu agir e pensar, aspectos fossilizados e inovadores, espontâneos e reflexivos, conservadores e progressistas. Pode conter, em seu interior, as ideias mais arcaicas possíveis, tomando-as como crenças verdadeiras, embora já tenham sido superadas a mais tempo pela ciência. O sendo comum pode considerar, ainda como verdadeira, por exemplo, a ideia de que a lua possui luz própria ou que o sol gira ao redor da terra. Movimenta-se geralmente pela intuição, pelos sentidos ou pela opinião dos outros, sem pô-la em questão. Deixa-se orientar, na maioria das vezes, cegamente pela tradição, sem compreender e aceitar as inovações.

Devido à sua ambiguidade, o senso comum é, por um lado, fonte de preconceitos. Enquanto tal, faz generalizações precipitadas, sem considerar o contexto e a particularidade de cada ser humano. Assim, pela raça ou religião, condena todos seus integrantes, sem avaliar as diferenças individuais. Porque um pertence a uma determinada religião e agiu de tal modo, todos daquela mesma religião agirão igualmente.

Por outro, a ambiguidade do senso comum abre a possibilidade para que o mesmo ser humano, que age preconceituosamente, possa ter lampejos que vão além de suas crenças fixas e fechadas. Isso caracteriza precisamente o misto de conservadorismo e de ideias progressistas que constitui o núcleo do senso comum, enquanto concepção de mundo.

É justamente esta ambiguidade do senso comum que, por um lado, impede sua condenação em bloco e, por outro, torna-o ponto de partida indispensável da reflexão filosófica e do processo formativo educacional humano. Neste sentido, não há nem filosofia nem educação sem a problematização do senso comum. É a ambiguidade do senso comum que o torna a “matéria prima” rica da filosofia e da educação.


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