Filosofia e senso comum

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A Filosofia nasce, como pensamento reflexivo, da ambiguidade do senso comum. Se o senso comum fosse constituído somente pela sua maneira inflexível e dogmática de ver o mundo, não haveria filosofia. Ao nascer do espanto, a filosofia pressupõe a capacidade humana de ver as coisas de diferentes pontos de vista. Deste modo, é a ambiguidade que permite que o dogmático se rompa e que o flexível e o plural assumam a dianteira.

O espanto que o ser humano sente diante de um acontecimento que rompe com a normalidade de sua vida, conduz-lhe a pensar de maneira diferente, a elaborar um outro olhar sobre o mesmo fenômeno. Vivendo na cotidianidade, o ser humano possui a tendência de colocar as coisas no piloto automático e construir rapidamente sua zona de conforto, que lhe dê segurança.

Do ponto de vista da filosofia, o espanto simboliza a ruptura com a cotidianidade. Sacudido por certos acontecimentos, o ser humano é levado a desligar o automático e a sair da zona de conforto. Sente-se desestabilizado e precisa construir novas referências. O espanto é o choque que tira o ser humano de sua normalidade. Pode ter visto a mesma coisa várias vezes, pode tê-la feito várias vezes, mas agora chocado (espantado) a vê de maneira diferente. A normalidade não serve mais e a zona de conforto lhe incomoda.

Nesta situação, desacomodado pelos acontecimentos significativos da vida, o ser humano questiona sua própria habitualidade de agir e de dar resposta às coisas. O senso comum não lhe satisfaz mais. Precisa encontrar outro caminho, outra forma para tratar dos problemas gerados pelo novo acontecimento. É levado apensar, a refletir.

Mas o que é o espanto na filosofia? Nasce da pergunta desconcertante posta por alguém, no caso, o filósofo, mas não somente ele. Afogado na sua cotidianidade, ocupando-se permanentemente com os instrumentos que lhe estão à mão, o ser humano não pensa, não sente a necessidade de pensar ou pensa pouco. O filósofo, pela pergunta, como o mosquito incomodativo que pica incessantemente, provoca o ser humano para sair de sua zona de conforto.

Deste modo, a filosofia simboliza o esforço humano para que as coisas possam ser vistas de maneira diferente, para que o senso comum não se feche em suas certezas dogmáticas e inabaláveis. A filosofia é o trabalho de elaboração conceitual da experiência humana do espanto, traduzindo-a em forma de pensamento meditativo.

Quem se deixa espantar é capaz de filosofar e ver a vida não só de uma única maneira, de um único ponto de vista. Abre-se para o mundo e descobre os sentidos que ele esconde. Esta foi historicamente a aposta de Sócrates, investindo no trabalho formativo da doxa (mera opinião). Ele considerava a doxa não só como fonte do engano, mas também como instância do acerto, como fonte originária do sentido da vida. A ambiguidade da doxa é a própria ambiguidade do senso comum. A pergunta filosófica, como procedimento questionador, é o modo de enfrenta-la.

A pergunta, a capacidade de perguntar, desempenha papel importante na vida do ser humano, sendo tida, no âmbito da filosofia, como principal recurso do pensamento: é perguntando que o ser humano pensa. Contudo, a capacidade de perguntar não é exclusividade do filósofo. O filósofo profissional, que faz do estudo e do ensino da filosofia sua profissão, quando dominado pelo jargão acadêmico e movendo-se somente por conceitos abstratos, não admite a ambiguidade de seu próprio senso comum, não pergunta mais e, com isso, deixa de pensar.

Se levarmos em consideração a ambiguidade do senso comum – ponto de vista que defendi no Blog da semana passada- então todo o ser humano possui a potencialidade de perguntar, porque também lhe é inerente a capacidade de pensar. Perguntamos porque pensamos e pela pergunta dinamizamos nossos próprios pensamentos.

O vínculo entre perguntar e pensar é o fio condutor de Ser e Tempo. Heidegger concebe este vínculo como disposição que pertence a todo o ser humano e não só ao filósofo. O ser humano (Dasein) possui, em sua ocupação com os instrumentos, a possibilidade ontológica de ir além desta ocupação. Portanto, Heidegger vê no vínculo entre perguntar e pensar a maneira adequada do ser humano fazer surgir de sua ocupação com os instrumentos a preocupação com a vida. Ou seja, é pela pergunta, como possibilidade ontológica, que o ser humano sai da manualidade para ingressar na mundanidade.

A mera ocupação com os objetos não satisfaz o ser humano. Ele precisa transformar o instrumento em obra; precisa dar sentido ao que faz, ou seja, precisa criar um mundo. Na linguagem ontológica heideggeriana, cabe questionar a ocupação humana cotidiana com o mundo dos objetos e abri-la ao mundo dos sentidos. O cuidado é a principal forma desta abertura. Daí resulta a diferença entre ocupação e preocupação, medo e angústia, descuido e cuidado, manualidade e mundanidade. Tratarei destes conceitos progressivamente, no decorrer da reflexão semanal.

De qualquer sorte, a ambiguidade do senso comum caracteriza a capacidade humana de perguntar, a qual brota da vida cotidiana e se eleva à forma mais elaborada. Ora, não é por uma escolha simplesmente aleatória que Heidegger começa seu volumoso Ser Tempo com a reflexão sobre o modo próprio de ocupação do ser humano com tudo o que está à sua mão (Zuhandenen).

O modo de ocupação caracteriza o aspecto intuitivo e espontâneo do senso comum, empregado pelo ser humano em sua vida cotidiana, para dar conta de sua operacionalidade com as coisas, ou seja, com o mundo de objetos. Mas, na ocupação reside a possibilidade ontológica que conduz o ser humano à preocupação. Quando alcança o âmbito da preocupação, ele não só opera com instrumentos, mas cuida de si mesmo e dos outros. No âmbito do cuidado, a pergunta ganha intensidade, tornando-se mais inteligente, mais afetiva, mais ética. O cuidado potencializa a pergunta e transporta o ser humano para o mundo ético. Faz da manualidade uma mundanidade.


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