Filosofia, senso comum e educação

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Claudio A. Dalbosco UPF – CNP

O senso comum é a concepção humana ambígua por excelência. O ser humano, assim como pode nascer e morrer afogado no mundo cotidiano, deixando-se apenas se ocupar com os instrumentos, também dispõe da possibilidade ontológica de ir além desta ocupação, de reinventar os instrumentos que lhe estão à mão, transformando-os em obra. A transformação do instrumento em obra recobra energia e criatividade do ser humano, assegurando a invenção tecnológica e cultural. Possibilidade ontológica é a abertura humana que torna possível a criatividade, fazendo do ser humano um permanente inventor de mundo.

A abertura como possibilidade ontológica dá origem à pergunta. É pela capacidade de perguntar que o ser humano, com o auxílio de outros, transforma em reflexão e capacidade de pensamento, os aspectos dogmáticos e enrijecidos de seu senso comum. A capacidade humana de perguntar caracteriza então exatamente esta possibilidade ontológica do ser humano ser mais do que ele é, de melhorar e se aperfeiçoar, mas sempre na companhia dos outros. O ser humano é, como alerta reiteradamente Heidegger, ser-com-os-outros.

Até aqui, não há nenhuma novidade em relação ao que já escrevi. Hoje eu gostaria de avançar num aspecto que está subjacente ao que já disse nas colunas anteriores, mas que não ficou evidenciado, de maneira clara. Refiro-me à problemática educacional que está diretamente relacionada ao senso comum e à filosofia. O problema pode ser formulado, mais precisamente, por meio da seguinte pergunta: qual é a dimensão educacional que está implicada na relação entre filosofia e senso comum?

A problemática formativa salta aos olhos. Sem processo educativo, o senso comum não se transforma e se não o faz, não pode criticar a si mesmo, em seus aspectos dogmáticos e arcaicos. Ou seja, sem formação (educação) não há possibilidade de autocrítica do senso comum e, sem ela, o ser humano não se torna um ser inventivo, não inova, permanecendo na mesmice. Enfim, se a educação não levar em consideração a possibilidade ontológica de abertura que sustenta a capacidade inventiva do ser humano, não há inovação e, sem ela, também melhoramento humano e social.

De outra parte, referida ao senso comum, é como processo formativo que a filosofia constrói sua especificidade. O que torna a macieira uma macieira, que a especifica enquanto uma árvore frutífera determinada é sua capacidade de dar frutos. Sabemos que ela é macieira porque produz maçã, e não pêra, laranja ou qualquer outra fruta. Seria um contra-senso dizer que é macieira porque produz laranja. Do mesmo modo, a filosofia, quando referida ao senso comum, é filosofia porque assume a tarefa de provocar sua autoformação. Se ela mantém o senso comum intocado, não é filosofia. Mas, provocar a autoformação do senso comum não é uma trivialidade qualquer e, menos ainda, um consenso entre os filósofos.

É a capacidade humana de perguntar, enquanto possibilidade ontológica, que cruza a relação tripartite entre senso comum, filosofia e formação. Qual é, então, o aspecto formativo da pergunta filosófica em relação ao senso comum? Esta questão conduz para o núcleo da tarefa formativa da filosofia, que a especifica e que a põem em diálogo com a cultura mais ampla, mostrando sua contribuição para a vida humana em geral.

É no modo como o filósofo concebe e trata o senso comum que se mostra ou não a dimensão formativa da própria filosofia. Se o filósofo conceber a filosofia como modo privilegiado de acesso à verdade ou, o que é mais desastroso ainda, atribuir exclusividade à filosofia, como única concepção verdadeira do mundo, então ele tendencialmente irá desconsiderar o senso comum, concebendo-o somente como fonte do erro e do engano. Ou seja, um conceito elitista de filosofia nega o senso comum e enfraquece o papel formativo da filosofia.

De outra parte, se o filósofo conceber a filosofia como uma das formas de pensamento e levar seriamente em consideração a ambiguidade constitutiva do senso comum, então ele toma tal ambiguidade como ponto de partida de sua reflexão. Mais ainda, não assume a postura arrogante de educar autoritariamente o senso comum, mas de provocar-lhe sua própria autoformação. E como o faz? Ou seja, como ocorre o processo de autoformação do senso comum? Estas questões remetem para o cerne da noção de filosofia como formação.

Heidegger tinha em mente isso quando toma como ponto de partida, em Ser e Tempo, o modo humano natural de ocupação como os instrumentos, em seu mundo cotidiano. Não descaracteriza a ocupação. Ao contrário, lhe atribui a possibilidade ontológica, como força que lhe é intrínseca, para projetar-se ao mundo da preocupação. Não é próprio à condição humana permanecer só ocupada com instrumentos e nem só transformá-los em obra. Também é constitutivo de sua condição – e por isso é ontológica – a possibilidade de ir além da mera ocupação. Heidegger coloca bem, é uma possibilidade e não uma determinação. Para que tal possibilidade se efetive é preciso que aconteça muita coisa; é preciso que ocorra formação, mobilizada pela capacidade humana de perguntar.

Contudo, sem que a relação natural do ser humano com o instrumento seja desnaturalizada, ou seja, sem que o instrumento seja transformado em obra, o ser humano não produz cultura e, com isso, não se torna humano. Todo o ser humano aprende pela experiência, mas se for introduzido adequadamente no mundo da experiência e levado a pensar sobre ela, possuirá obviamente melhores condições de potencializar sua experiência.

Ora, a preocupação pedagógica do filósofo com a ambiguidade do senso comum é que o permite pensar sobre o modo naturalizado de sua ocupação com os instrumentos que lhe estão à mão. Como mestre da preocupação, o filósofo, desde que adote a postura da pergunta, pode provocar, mas não impor e determinar, a autoformação do senso comum. Movido pela pergunta, o filósofo torna-se o pedagogo que orienta e dirige a autoformação do senso comum. Sem o exercício da capacidade de perguntar, o filósofo agarra-se no aspecto dogmático de seu próprio senso comum.




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