Ocupação como forma de vida

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A filosofia como espanto é uma forma de enfrentar a ambiguidade inerente ao senso comum, criticando suas certezas imediatas e inabaláveis. Como força reflexiva de pôr adequadamente as perguntas, a filosofia provoca a autoformação do senso comum. A autoformação não ocorre sem resistência e sem sofrimento, porque abandonar ou refazer crenças e convicções é algo doloroso ao ser humano.

Qualquer ser humano pode livremente perguntar se precisa colocar em questão seu senso comum. Qualquer um pode resistir, dizendo não estar disposto a abrir mão de suas certezas imediatas. Para determinadas situações, não precisa abrir mão de suas convicções; para outras, é indispensável, caso queira crescer e se tornar melhor do que é. Vida bem vivida, vida feliz no sentido filosófico, é aquela que suporta refazer constantemente crenças e convicções.

O apego às certezas imediatas caracteriza a resistência à filosofia e a qualquer outro tipo de saber elaborado, como o saber científico. A resistência intransigente à reflexão impede o crescimento. Quando se resiste à boa filosofia, perde-se a oportunidade de crescer e de se tornar crítico e, com isso, de desenvolver a capacidade de julgamento. Quando se resiste à ciência e à inovação tecnológica, perde-se a possibilidade de se abrir ao desenvolvimento social e humano.

Resiste-se às inovações filosóficas e científicas de uma maneira quase inconsciente. É postura natural do ser humano agarrar-se a suas crenças e convicções, pois são elas que lhe dão segurança. Contudo, quando se prende ferreamente a elas, corre-se o risco de dogmatizá-las, deixando de se abrir para as inovações. O processo de abertura do senso comum ao novo é antes de tudo resultado do trabalho formativo. Sem educação, sem sensibilidade formativa, não se insere ninguém na inovação filosófica ou científica.

Para seguir adiante, a filosofia e a ciência precisam ser persistentes e furar o bloqueio construído pelo senso comum. E como o fazem? Procurando conhecer e compreender melhor sua estrutura e o modo como o senso comum é constitutivo da condição humana, como se torna o modo de pensar e agir do ser humano.

O esforço de Ser e Tempo foi no sentido de investigar a condição humana, o modo próprio de o ser humano ser no mundo. Seguindo a investigação sobre a condição humana no mundo, Ser e Tempo trata do senso comum. Emprega dois conceitos técnicos, ocupação (Besorgen) e preocupação (Fürsorgen), que caracterizam bem a ambiguidade da condição humana.

Heidegger trata destes dois conceitos na parte inicial da referida obra. Posteriormente, associa a preocupação ao cuidado (Sorge), concebendo-os como modo de o ser humano ser, ou seja, como características próprias da postura humana, de sua forma de pensar e agir. Mas, em que sentido ocupação, preocupação e cuidado são traços distintivos da condição humana? Em que termos o ser humano é um ser ocupado e, ao mesmo tempo, preocupado?

Vejamos primeiro a idéia do ser humano como um ser ocupado. A ocupação define o modo de vida cotidiano do ser humano, sua relação imediata com tudo o que está à sua mão. Por isso, a ocupação é a própria postura do senso comum, caracterizando-o, embora Heidegger não o diga expressamente. A ocupação compreende a relação que o ser humano mantém diariamente com o mundo dos instrumentos (objetos) que estão a sua volta, visando suprir suas necessidades. Diz respeito ao tipo de fazer humano que não exige muita reflexão. Portanto, caracteriza-se mais pelo agir mecânico e instintivo do que reflexivo, embora a reflexão possa brotar da ocupação.

Em síntese, ocupação caracteriza o comportamento habitualizado, ou seja, vinculado ao hábito mecânico de fazer coisas. Estou com fome e preciso de um garfo para comer. Dirijo-me à estante, apanho o garfo e sacio a fome, elevando até minha boca o alimento que se encontra no prato à minha frente. Tudo está à mão (Zuhandsein), o garfo, o prato, a estante, a mesa e o alimento. Tenho um problema, a fome, e o resolvo recorrendo aos instrumentos que estão à minha mão. Não preciso pensar para apanhar o garfo e levar o alimento até a boca.

Neste modo cotidiano de ação, como ocupação, também há o encontro com outros seres humanos. Na verdade, é a presença de outros seres humanos que torna possível minha ocupação com o mundo dos objetos. Por isso, Heidegger considera decisivo o encontro humano também no âmbito da ocupação. Destaca, porém, que o outro aparece a mim, vem ao meu encontro, pela ótica dos instrumentos que estão à mão.

Metidos no meio dos instrumentos, os seres humanos se relacionam entre si, seguindo a mecânica dos instrumentos para atender suas necessidades e interesses imediatos. Estou cozinhando e alguém está ao meu lado, vou ao seu encontro, chamo-o ao mundo dos objetos que está a minha disposição para cozinhar, perguntando-lhe, gentilmente, para me alcançar o saleiro que está ao seu lado. O saleiro chega até mim pela mediação do outro que está na minha companhia.

Ocupado em cozinhar, sirvo-me dos instrumentos que me são úteis e recorro ao outro para me auxiliar. Posso estabelecer com o outro um diálogo profundo sobre problemas que nos afligem mutuamente, o que geralmente se faz na companhia de um amigo, enquanto se cozinha e, principalmente, enquanto se janta. Mas, o ato de cozinhar implica a utilização de instrumentos como meio para preparar o prato. O bom prato depende obviamente do tino e do jeito do cozinheiro, mas não ocorre sem a utilização de instrumentos indispensáveis ao cozimento.

Se a ocupação caracteriza o agir quase instrumental que o ser humano mantém cotidianamente com os instrumentos, ela não deixa de ser a base, a infra-estrutura, por assim dizer, da preocupação. A preocupação é, contudo, outra forma de vida, que não está desvinculada completamente da ocupação, mas que já não coincide mais inteiramente com ela. Que forma de vida é, então, a preocupação?


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