Trabalho na Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Faço pausa de minhas reflexões sobre formação humana em Ser e Tempo de Heidegger, para relatar a experiência vivenciada na semana passada. Fui convidado pelos professores Deodato F. da Costa, José B. Neto e Valcicléia P. da Costa, do Curso de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), para proferir palestra e ministrar um mini-curso sobre filosofia e educação. Foi a primeira vez que estive em Manaus e no próprio Estado do Amazonas. Minha curiosidade era grande, tanto em relação à UFAM como à própria cidade, às pessoas, cultura e natureza.

A Universidade fica literalmente encravada na mata tropical, construída dentro de uma grande área de terra, preservando a mata nativa. A estrada de cinco ou seis quilômetros que dá acesso às construções, estando já dentro do Campus, e as calçadas que ligam um prédio ao outro são cercadas de mata por todos os lados. Há um grande centro de convivência totalmente aberto, sem paredes, assim como também são abertos os refeitórios dos centros acadêmicos. Algo impensável para o Sul do Brasil devido ao nosso inverno e o minuano que corta a alma do gaúcho.

É comum caminhar pelo Campus e encontrar animais, como macacos, cruzando o caminho. Também há muitas aves, insetos e até mesmo cobras. A profa. Valcicléia me relatou que tempos atrás uma cobra entrou em sua sala de trabalho, sem ela ver, devendo ter ficado lá por algum tempo, escondida atrás da estante de livros. Foi descoberta quando a senhora que faz a limpeza da sala arredou a estante da parede. A professora narrou o acontecido com a maior naturalidade. Imagino qual seria nossa reação, se uma cobra fosse encontrada na sala de trabalho, na UPF.

Caminhar pelo Campus, ver suas construções adentrarem a mata e sentir o frescor da mata virgem, principalmente à noite, é uma sensação indescritível. Tudo é novidade que se mostra e se acentua nos pequenos detalhes: formigas diferentes, grandes, carregando folhas para suas caseiras construídas ao lado da calçada. Para fazer sua caseira, elas levantam um monte de terra amarelada, parecendo maravalha de madeira recém cerrada. O prof. José Belizário me explicou que esta terra que a formiga puxa de baixo para a superfície torna-se produtiva para o agricultor, quando a usa para plantar seu roçado.

Ao sair do Campus, à noite, cruzando a mata pela calçada, pode-se ouvir um intenso alarido da fauna noturna. Sons estranhos e desconhecidos se cruzam. Embora sejam diferentes, provindo de todos os lados, ao impregnarem o ouvido humano, compõem bela melodia. Canto de pássaros se mistura com o barulho de insetos, formando uma sinfonia singular, diferente daquela que ressoa noturnamente na região do Planalto Rio Grandense.

A UFAM é muito antiga e possui hoje mais de cem cursos de graduação, com cerca de 17 mil alunos. Recebi um livro de presente sobre sua história, intitulado 100 anos UFAM, no qual a autora, profa. Rosa M. de Brito, afirma que é uma das mais antigas do Brasil. Devido à sua localização distante do centro do país e a grande extensão geográfica do Estado do Amazonas, as dificuldades são muitas, tornando oneroso o financiamento educacional.

Conversei longamente com o prof. Nelson M. de Noronha, que é filósofo e atualmente exerce a função de Pró-Reitor de Graduação. Esteve na mesa juntamente comigo, coordenando minha conferência de abertura do evento. Relatou-me, depois, algumas de suas viagens para municípios do interior do Estado do Amazonas. Nos municípios mais distantes, chega a levar até quatro horas de avião mini-motor. De barco, embora seja o meio de transporte mais usado, é praticamente inviável, pois tem viagens que demoram dias e até semanas.

Também circulam pela UFAM muitos estudantes estrangeiros, provindos, em sua maioria, dos países vizinhos, como Peru, Venezuela e Colômbia. Alguns estudantes já moram há anos em Manaus e outros chegaram recentemente, para estudar. Encontrei naqueles dias na UFAM um grupo de biólogos alemães, que por meio de um convênio internacional, estavam fazendo pesquisa não só na Universidade, mas também no Instituto Nacional de Pesquisas do Amazonas (INPA), sobre o qual falarei na próxima coluna.

A singularidade da convivência acadêmica entre professores e alunos mediada pela presença permanente da natureza foi algo que me marcou. Faz-me pensar o quanto estamos perdendo o vínculo com a natureza e o quanto tal vínculo é indispensável para o próprio equilíbrio humano. Paradoxalmente, a própria Manaus urbana, em sua dura rotina cotidiana, cada vez mais tomada pelo desenvolvimento tecnológico e pelo automóvel, parece esquecer-se de que ela própria está encravada na maior floresta do mundo.

Quem se dirige à cidade para trabalhar, provindo de outro Estado, e permanece somente no perímetro urbano, sem distanciar-se de seus dispositivos digitais, vive como se estivesse em qualquer outra grande capital brasileira. Passa-lhe despercebido o fato de estar próximo da maior floresta do mundo. Não se abrindo à experiência com a natureza e não se dispondo a ouvi-la, pode privar-se da possibilidade de fazer a experiência autentica consigo mesmo. Neste caso, a natureza não conta, mesmo que sejam árvores centenárias e rios caudalosos, imponentes pelo tamanho e pela beleza.

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