CTG Lalau Miranda: 64 anos

Postado por: Dilerman Zanchet

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* Dilerman Zanchet - Jornalista

Um dos mais antigos centros de tradições do rio grande do sul comemora, neste dia 24, 64 anos de fundação. O Centro de Tradições Gaúchas Lalau Miranda, atualmente um dos maiores da região Norte do RS, teve como seu primeiro patrão o jornalista Múcio de Castro. Iniciou suas atividades em uma sala cedida pelo Clube Comercial.

O CTG Lalau Miranda conta com cinco grupos de danças tradicionais (pré, mirim, juvenil, adulta e xirú), uma invernada campeira, duas invernadas por adesão (Caminhos da tradição e Rincão Campeiro). São mais de 150 crianças e jovens que, semanalmente, estão envolvidos em ensaios e participações em concursos pelo estado afora. Tem representantes em todas as modalidades individuais, com destaque para dança de salão, chula, declamação (masculino e feminino), conjunto instrumental e vocal, intérpretes e outras atividades.

Por três vezes elegeu a Primeira Prenda do RS. Atualmente, Marina Giolo, representante do CTG Lalau Miranda, ostenta a faixa conquistada em 2015.

Sua sede está localizada na rua Uruguai, esquina com a Manoel Portela, fundos da Prefeitura Municipal. A sede campestre é a área de sete hectares onde está situado o Parque de Rodeios.

Nas atividades tradicionalistas e sociais, o CTG lalau Miranda caracterizou-se, nos últimos anos, pela culinária. Anualmente serve, para mais de cinco mil pessoas, o "costelão ao fogo de chão", iguaria campeira que consta de assar a costela bovina inteira, tendo como tempero apenas o sal grosso. são mais de seis horas de fogo brando, utilizando lenha.

A seguir, transcrevo um trecho da história da fundação do movimento tradicionalista gaúcho e, por consequência, do CTG Lalau Miranda, transcrito de obras de Welci Nascimento e do Projeto Passo Fundo.

A história

O professor Welci Nascimento conta a história, que transcrevemos aqui: "Terminada a Segunda Guerra Mundial, na metade da década de quarenta do século passado, o Brasil entrou numa fase influenciada pela cultura norte-americana, adida ao grande vencedor da guerra. A cultura gaúcha estava no esquecimento. Quase apagada na memória do povo, embora o esforço dos escritores regionalistas e dos grêmios gaúchos. Havia um imobilismo cultural no Rio Grande do Sul. Não tínhamos identidade musical. As emissoras dos gaúchos só rodavam discos do gênero caipira, moda de viola paulista, e o povo, até do interior, tinha constrangimento de usar bombacha.

Em conseqüência, a cultura estrangeira assumia o seu papel através da música, do modo de vestir, dos meios de comunicação, como revistinhas e cinema. Era preciso sacudir o Rio Grande, fazendo com que o seu povo passasse a cultuar suas tradições e não deixasse morrer o ardor por seu pago.

Vai daí que um grupo de jovens estudantes do tradicional Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, estudantes na sua maioria originários do interior do Rio Grande, resolveu criar o Departamento Cultural do Colégio, com a finalidade de cultuar as tradições do povo gaúcho, ao ponto de, na garupa do Fogo Simbólico Nacional, criar a Chama Crioula Rio-grandense e fundar o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, que foi batizado de "35 CTG", na capital do estado, sementeira do Movimento Tradicionalista Gaúcho. Convém lembrar alguns nomes desses jovens: Paixão Cortês, Barbosa Lessa, Glaucus Saraiva, Ciro Dutra Ferreira, Orlando Degrazia, João Machado Vieira, Fernando Machado Vieira, Ciro Dias da Costa, Cilço Campos, Antônio Siqueira e o conterrâneo Wilmar W. de Souza, o Provisório.

0"35 CTG" dinamizou de tal forma o culto às tradições que passou a ser alvo de atenções, primeiramente das principais cidades gaúchas, em seguida de todo o Rio Grande e, atravessando suas fronteiras, principalmente onde havia uma família de gaúchos, migrava para outros estados da federação.

A ideia cresceu e fez surgir o Movimento Tradicionalista Gaúcho - MTG- porque, a partir do ano de 1954, os CTGs, começaram a se reunir, em congressos tradicionalistas, onde deliberavam seus interesses e exigiam uma coordenação. Dessa forma, surgiu o MTG ( Movimento Tradicionalista Gaúcho) que passou a congregar todas as entidades tradicionalistas, dirigidas por um coordenador ou coordenadora. O MTG tornou-se o catalisador, o disciplinador, o orientador das atividades dos centros de tradições gaúchas, dos departamentos tradicionalistas, dos quadros de laçadores, dos grupos folclóricos, no que diz respeito ao que preconiza a Carta de Princípios do Tradicionalismo Gaúcho, constituindo-se no maior organismo cívico-sócia-cultural do Rio Grande do Sul e, porque não dizer, do Brasil.

O que antes era vergonha usar, hoje não é mais. A bombacha, o lenço no pescoço, branco ou vermelho, as camisetas coloridas, o chimarrão, já se integraram na vida do dia-a-dia da juventude.
 Hoje, a juventude mostra grande interesse pelo gauchismo. Da mesma forma que esses jovens de bombacha, no informalismo dos festivais e dos rodeios nativistas, espontaneamente fazem cultura, outros grupos também de jovens, contando causos, nos fins de tarde e tomando chimarrão, convocavam, no final da década de 40, seus colegas ginasianos e o povo rio-grandense para uma ação afirmativa, criando o primeiro Centro de Tradições Gaúchas.

Já se disse que a única coisa que pode salvar um povo do colonialismo é o culto às nossas tradições, sejam elas gaúchas ou nordestinas. Os centros de tradições gaúchas, quando bem dirigidos, procuram devolver às pessoas o que elas perderam, ou temem perder, que é o pago das gerações dos seus ancestrais.

Aqui no Planalto Médio, o primeiro centro de tradições gaúchas foi idealizado pelos senhores Antônio Donin, Tenebro dos Santos Moura, Jorge Edethe Cafruni, Ney Vaz da Silva e Múcio de Castro. Os três primeiros eram membros da Academia Passo-Fundense de Letras, sendo que a idéia inicial foi do professor Antônio Donin. Depois de inúmeras reuniões em que participaram lideranças da cidade e interior, em 24 de março de 1952 fundaram o CTG Lalau Miranda, para homenagear Estanislau de Barros Miranda, popularmente chamado de Lalau Miranda, filho de Francisco de Barros Miranda, o terceiro presidente do Conselho Municipal de Passo Fundo (1865) e herói na Guerra do Paraguai".

Destaca-se que Welci Nascimento é professor aposentado e sócio benemérito do CTC Lalau Miranda. Na Academia Passo-Fundense de Letras ocupa a cadeira nº 23, cujo patrono é Casimiro de Abreu.

O patrono

O site Projeto Passo Fundo (http://www.projetopassofundo.com.br) narra a história de Estanislau Miranda:

"O nome do Centro de Tradições Gaúchas Lalau Miranda deve-se a uma justa e merecida homenagem prestada pelos sócio fundadores a um dos mais autênticos gaúchos que viveu no século passado, até a segunda década do atual, Estanislau de Barros Miranda. Nascido em 24.11.1853, passou quase toda sua existência num local denominado "Casa Branca" no município de Passo Fundo (RS), vindo a falecer em 9.1.1916. Ficou conhecido por "LALAU MIRANDA".

Contam os que tiveram oportunidade de conhecê-lo, entre os quais sua filha Eponina, ter levado uma existência com seu espírito impregnado dos mais elevados sentimentos de humanidade cristã, dotado de uma conduta retilínea e ilibada honradez, trilhando sempre a senda do bem e semeando o bom exemplo a todos os que o rodeavam.

Era homem de razoável cultura, eis que, não obstante, as dificuldades educativas da época, estudou, alguns anos, em educandário religioso de Sorocaba (SP), recebendo uma ótima formação moral e religiosa, voltando, depois, para suas lides prediletas, que eram as campeiras.

Era trabalhador esmerado e caprichoso e por isso muito abastado, mas, contudo, generoso e humano. Sempre conformado com a sorte que o "Patrão das Alturas", como dizia ele, lhe oferecia, certa feita, chegando em casa, encontrou sua bela morada transformada num braseiro e cinzas, com mulher e filhos desesperados em prantos pelo triste acontecimento. Mas o Gaúcho, que era "vaqueano da vida", logo encontrou uma solução.

Com sua peculiar serenidade e um sorriso nos lábios, por ver todos seus familiares salvos, perguntou à sua mulher:

- Ninguém se queimou, minha velha? Choramingando respondeu-lhe:

- Não, graças a Deus, mas, de tudo que nós tinha, só restou a tua viola porque tava pendurada na laranjeira.

- Ah!... Muito bem, Sinhá, então faça o favor de me alcançá-la e chega de choro. Faremos uma casa melhor e vamos todos cantá pra agradecê ao "Patrão" por ter-nos salvado a todos.

E improvisou alguns versos agradecendo a Deus por ter poupado a vida de toda sua família.

Narra-se, ainda, que certa ocasião encontrou um homem carneando um suíno que lhe furtara, nos fundos de sua invernada. Aproximando-se, sem que o ladrão o percebesse, perguntou-lhe: Sofrendo um pouco, vizinho?!...

O rapaz, apavorado, qual louco, disparou campo a fora, correndo mais que o vento. Mas o Sr. Lalau chamou-o: -Venha cá, moço, não precisa buscá ajuda não, eu posso te ajudá e levá o porco pra tua casa e se lá não tiver sal para salgá-lo, venha buscá na minha casa.

O rapaz, encabulado, descorado, trêmulo e cabisbaixo voltou, após algumas reflexões, pedindo-lhe escusas e prometendo pagar-lhe em dobro quando pudesse.

Mas é certo que, até hoje, tal suíno não foi pago e jamais lhe foi cobrado.

O seu esporte predileto era montar seu pingo e ir para a cancha brincar de hipismo. Para tanto, tinha sempre dois parelheiros, de sua propriedade, e um compromisso para tratá-los cuidadosamente.

Houve uma época em que possuía seis cavalos picaços todos mansos e tão bem ensinados que obedeciam sua voz de comando e formavam fila para comer açúcar na mão de seu dono, quando lhes ordenasse.

Mas seu modo de viver, tipicamente gauchesco e autêntico em todos os aspectos, ainda vai longe.

Desincumbia-se, com excelência, na música, cantando e tocando diversos instrumentos. Era dotado de invejável habilidade na trova, na poesia crioula e em danças folclóricas. Onde quer que se encontrasse, cercava-se de amigos, pois que, com seu modo de ser, suas músicas e poesias sabiam cativar a todos que o rodeassem.

De outra parte, nas lides de campo era de fato "um cuera mui guapo". Exímio cavaleiro, ginete, domador, laçado r tanto com a mão direita como com a esquerda, e trançador de primeira, executando verdadeiras obras de arte com couros de animais diversos para apeiragens das mais variadas.

Ao par disto, no manejo de um revólver e na esgrima não encontrava concorrente. Mas por um capricho e acerto da natureza estava impedido de usar armas em briga. Só podia usá-las para caçar e para brincar como, por exemplo, para tramar a "dança dos facões" e fazer tiro ao alvo", etc.

Em briga não podia usá-las por razão muito simples. Porque todos que com ele se defrontavam eram seus amigos e, assim, lhe faltava adversário para pelear".

Tem coisa mais linda, prezado leitor, que o resgate da história de nossos antepassados?




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