Encantos e desencantos em Manaus

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A cidade de Manaus padece dos mesmos problemas de outros grandes centros urbanos brasileiros: Há falta de saneamento básico, transporte coletivo, habitação, saúde e educação. O contraste entre ricos e pobres e entre a parte bem urbanizada da cidade com a parte precarizada, é visível e, ao mesmo tempo, inaceitável. De um lado da cidade tem-se tudo, do outro falta quase tudo. Se pensarmos numa vida humana digna, com igualdade de oportunidades para todos, temos muito a avançar e muito ainda por fazer, enquanto projeto de nação.

O aumento exagerado do automóvel no perímetro urbano tornou as cidades brasileiras quase inabitáveis. Temos a nítida impressão, nos dias de hoje, mais do que outrora, de que a cidade parece ter sido feita para automóveis e não para pessoas. Tal é o caso especificamente de Manaus, onde o número de automóvel circulando nas ruas parece ser ainda maior do que em outros lugares.

Manaus tem o agravante de ter calçadas estreitas, em sua maior parte, e de ter o hábito, entre os motoristas, de estacionar nas calçadas. Também estranhei ter muitos sinais de travessia dos pedestres fora das sinaleiras, aumentando ainda mais o perigo às pessoas. Quando quer atravessar a rua, o pedestre simplesmente levanta o braço e os carros devem parar, às vezes de supetão, pondo em risco não só as pessoas como o próprio carro, uma vez que o motorista que vem atrás, em outro carro, pego de surpresa, pode bater na traseira do que está à frente.

Apesar do caos urbano, que não é próprio só de Manaus, a cidade possui muitos encantos, oferecendo muitas opções culturais, lugares para visitar, bons restaurantes, encontro das águas e a exuberância do Teatro Amazonas. Além da UFAM, também há o INPA, prestigiando-nos com uma pequena amostra, dentro da cidade, da diversificada flora e fauna amazônica. Com área de treze (13) hectares, construiu-se o Bosque da Ciência, de finalidade predominantemente educativa, recebendo, além de alunos das Escolas dos municípios do Estado do Amazonas, também muitos turistas de todos os Continentes.

No Bosque das Ciências pode-se ver peixe boi, pirarucu, cobra jibóia, macacos de várias espécies, saltitando por entre os galhos de árvores altas, robustas e centenárias. Pode-se ver, também, a planta do guaraná com suas folhas bonitas, bem torneadas e verdejantes. Ao caminhar por entre a mata ouvi pequenos estalos que anunciavam frutinhas arredondadas, cinzas com pequenas manchas de preto, caindo no chão. A guia (funcionária) que me acompanhava explicou-me que se tratava de sementes da seringueira que, por estar na época, desprendiam-se dos galhos e deitavam ao solo. Ver em viva presença o guaraná e a seringueira pode-se imaginar de maneira mais intensa o significado destas duas plantas, não só para a cultura local senão como simbologia nacional, que projeta o Brasil além mar.

Minha primeira visita, na cidade, acompanhado pelo prof. Deodato e por Rose, sua esposa, foi ao Teatro Amazonas. Sua grandiosidade, beleza e imponência saltam à vista. Não fica atrás de outros grandes teatros europeus. Inaugurado em 1896, embora de estilo eclético, há traços barrocos que dominam algumas de suas salas. Considerado maior edifício histórico de Manaus, realiza-se nele anualmente, em maio, o maior festival de ópera da América Latina. Segundo depoimento do guia (funcionário) que nos orientou, Pavarotti comentou, em sua estadia no próprio Teatro, que encontrou ali uma das melhores acústicas do mundo.

A singularidade do Teatro Amazonas, em relação às outras grandes casas de espetáculos mundiais, deve-se ao fato de ser produto da pujança proporcionada pelo ciclo da borracha. Com o látex extraído da seringueira, pelo trabalho árduo do seringueiro, enfronhado na mata, vivendo em condições muito precárias, foi possível a edificação desta bela construção gigantesca. Seu estilo arquitetônico e sua organização espacial, com assentos marcados e bem distintos entre si, mostram inequivocamente a divisão de papeis e o lugar social ocupado por cada um que o frequenta.

Ao visitar o Teatro e ao ver sua organização interna lembrei-me imediatamente de A Sociedade de Corte, de Norbert Elias. Guardando todas as proporções, o que Elias fala das estruturas sociais a partir das estruturas de habitação, poderia se falar da figuração social brasileira da época, tomando como referência a estrutura de distribuição de lugares dentro do próprio Teatro Amazonas.

Trata-se de relações baseadas no prestígio, cuja lógica é mostra-se sempre mais e melhor do que realmente se é, visando alcançar uma posição social melhor dentro da corte ou preservar ferreamente aquela que já possui. Também foi este aspecto de se ressaltar as aparências, criando um mundo da artificialidade que levou Rousseau, em sua Carta a D’Alambert, criticar duramente o teatro francês do século XVIII.

O Mercado Municipal Adolpho Lisboa é outro lugar imponente da cidade. Baseado no estilo arquitetônico da arte nouveau, também foi construído no período áureo da borracha, durante os anos de 1880. Uma de suas fachadas fica de frente para o Rio Negro, onde se concentra a maior embarcação da cidade, que distribui e recebe pessoas e mercadorias de outros municípios do Estado e de outros Estados das regiões Norte e Nordeste.

Por ser um dos principais centros de comercialização dos produtos regionais, o Mercado Municipal oferece um abundante artesanato local, grande circulação de pessoas e uma farta alimentação, baseada em peixes pescados nos Rio Negro, Solimões e, depois, no próprio Amazonas. Provar o pirarucu ou o tucunaré recém pescado, acompanhado do baião, tendo como bebida o guaraná fresco da região, é uma das delicias alimentícias que o Mercado oferece.

Por fim, a visita à Ponta Negra restaurada é imperdível, como belo lugar para caminhar e tomar soverte com diferentes sabores de frutas amazonenses típicas, como o cupuaçu e o assai. O melhor é fazê-lo ao entardecer, vendo o sol se por ao fundo do Rio Negro, com a exuberância de suas águas refletidas pelos raios solares, que aos poucos vam desaparecendo no horizonte, anunciando a noite que se avizinha. E por falar em águas, por absoluta falta de tempo, ficou para outra visita, o famoso encontro das águas, onde Rio Negro e Solimões, tocando-se mutuamente, deixam de existir para dar vida ao Rio Amazonas.


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