O estrangeiro

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A viagem para Manaus talvez tenha me despertado maior curiosidade e, ao mesmo tempo, mais desconcerto do que toda minha longa e penosa preparação para fazer doutorado no exterior, na Alemanha. Pergunto-me: por que me senti mais desconcertado desta vez? Parece que agora o espanto e o tremor foram maiores; o frio na barriga parece ter sido mais intenso.

Uma explicação possível é que ir para a Alemanha, significava, na época, ir para a racionalidade européia, para o berço da filosofia moderna e contemporânea. Lembro-me do primeiro seminário que freqüentei na Universidade de Göttingen e, depois, de outros seminários na Universidade de Kassel e de Marburg. O quanto soava familiar, no texto em alemão da Crítica da Razão Pura, de Immanuel Kant, as expressões latinas por ele empregadas: Natur para natureza; Methode para método; Kritik para crítica, e assim por diante. Ou seja, encontrava algo familiar numa língua e cultura bem diferentes do que a minha.

E o que se passou com minha experiência em Manaus? Obviamente, familiaridade e estranhamento não iriam ocorrer do mesmo jeito daquele vivenciado na Alemanha. Talvez, o que mais me amedrontou, antes da viagem para Manaus, foi a sensação de estar indo para um mundo completamente estranho e diferente do meu próprio mundo. De sentir-me estrangeiro em meu próprio país.

Manaus, embora desenvolvida tecnologicamente e já muito urbanizada, ainda preserva, em certo sentido, a mistura própria da cultura latino-americana. Simboliza o coração da América Latina, no sentido de representar a confluência de muitas culturas, ainda enraizadas na natureza.

Tudo isso dá uma singularidade própria a determinadas formas de vida, que não possuem a pressa e a rapidez do mundo plenamente tecnológico. Parece haver uma experiência humana diferente com o tempo, com a temporalidade, ou seja, uma mansidão, um remanso no comportamento, que a forma de vida tecnológica faz desaparecer.

Este profundo processo de estranhamento com a cultura diferente me faz lembrar do Excurso sobre o estrangeiro (Exkurs über den Fremden), escrito pelo sociólogo alemão Georg Simmel, no início do século passado. Neste ensaio Simmel emprega algumas categorias, algumas ferramentas conceituais, que auxiliam o ser humano a compreender sua experiência com grupos sociais e culturais diferentes.

Sua análise sobre a figura do estrangeiro sintetiza, em vários aspectos, o sentimento humano do estranhamento. A primeira distinção que ele faz é entre o estrangeiro e o viajante: enquanto o primeiro chega e se estabelece, o viajante chega e sai, ou seja, está de passagem, não se fixando no lugar. Mas, mesmo na condição de viajante, se for um observador arguto, se conseguir construir uma “objetividade livre”, o ser humano também pode fazer a experiência do estrangeiro, embora com intensidade menor.

Simmel insere o comportamento do estrangeiro em dois tipos de ligações humanas mais amplas. Denomina a primeira de ligação orgânica, na qual os integrantes do mesmo grupo cultural possuem procedimentos mais ou menos comuns. Para estes integrantes tudo é familiar, quase nada lhes é estranho. Simmel chama a outra forma de ligação de abstrata, formal, caracterizando-a como relação entre grupos estranhos ou pessoas sem proximidades entre si.

A ligação orgânica caracteriza a proximidade; a ligação abstrata, a distância. Ora, é nesta tensão entre proximidade e distância que se constituem as relações humanas e que os seres humanos constroem seus “laços sociais”, amarrando-se uns aos outros. Neste contexto, o estrangeiro personifica exatamente a tensão entre proximidade e distanciamento. Tal tensão revela, segundo Simmel, a interação como modo próprio de ser da condição humana: interação de proximidade e interação de distanciamento, ambas se diferenciando entre si, mas se cruzando mutuamente.

A proximidade significa a busca pelo outro, compreendida como forma de construir a própria identidade. Embora Simmel não o diga, a proximidade canaliza os afetos amorosos que desembocam na compaixão, na cooperação e na solidariedade. São afetos que só podem ser conquistados na vida em grupo, na presença exigente que o outro sempre representa para mim mesmo. Contudo, mesmo na proximidade pode haver sentimentos opostos aos amorosos, pois a fronteira entre amor e ódio é muito tênue.

De outra parte, o distanciamento assinala a diferença humana e sua reivindicação pela singularidade. É o espírito de distanciamento que oportuniza a cada um não ser o mesmo que o outro, exigindo, ao mesmo tempo, respeito à individualidade na vida cooperativa de grupo. Mas, o sentimento de distância também pode acirrar a busca humana obsessiva pela superioridade em relação ao seu semelhante. Pode alimentar o desejo de onipotência que conduz à exclusão do outro.

De qualquer modo – e este é o aspecto construtivo - o distanciamento possibilita ao estrangeiro, segundo Simmel, a objetividade como liberdade. Mas, o que isso significa? Em suas próprias palavras: “O indivíduo objetivo não está amarrado a nenhum compromisso que poderia prejudicar sua percepção, entendimento e avaliação do que é dado”. Deste modo, a objetividade livre potencializa o sujeito para fazer experiências autônomas, sem se deixar conduzir por pensamentos fechados. Ela o impede de sucumbir à ideologia fundamentalista de grupo.

Em síntese, embrenhar-se na cultura diferente exige o processo individual de estranhamento que conduz o ser humano conhecer melhor a si mesmo e sua própria cultura. Nada melhor do que estar fora de sua terra para redescobri-la com outros olhos. Talvez seja por isso que a viagem fascina tanto o ser humano, pois, quando orientada pela objetividade livre, possibilita o processo de estranhamento que leva à melhor descoberta de si mesmo, em respeito à diferença que o outro mundo representa.


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