Filosofia e educação: cercanias de um diálogo

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Minhas atividades acadêmicas desenvolvidas na UFAM, em Manaus, contaram de uma conferência e de um mini-curso. Embora fossem duas atividades distintas, elas se cruzaram no tema do diálogo entre filosofia e educação e seu papel na formação docente. Eu insisti pessoalmente na idéia de que uma boa formação do professor que atua no Ensino Médio necessita das Humanidades, precisando ir além de uma formação filosófica e pedagógica especializadas. Necessita da educação conectada com a prática pedagógica escolar, alicerçada na problematização da condição humana e da sociedade.

Ambas as atividades permitiram-me retomar uma questão que desenvolvi amplamente no meu livro Pedagogia Filosófica: cercanias de um diálogo, publicado em 2007, pelas Edições Paulinas, de São Paulo. Meu propósito foi então tratar dos obstáculos que impedem o diálogo entre filosofia e educação na atualidade e, ao mesmo tempo, apresentar algumas alternativas para que intensifique o intercambio entre estas duas áreas do saber humano, visando à formação docente.

Mas, por que tratar de um tema desta natureza, aparentemente tão acadêmico? Minha fala fora dirigida em sua grande maioria a professores das licenciaturas, vinculados especialmente ao Ensino Médio. Parti da convicção inicial de que não podemos aprofundar questões centrais relacionadas à formação de professores sem levar em consideração o diálogo entre filosofia e educação. Tenho me posicionado no cenário nacional, principalmente no espaço da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED), defendendo a presença maior das Humanidades, especialmente da filosofia da educação nas Licenciaturas.

Existem vários obstáculos que interromperam, progressivamente, o diálogo entre filosofia e educação. Cabe lembrar, antes de tudo, que em sua origem, a filosofia é formação e a pedagogia nasce estritamente ligada à filosofia. O ideal da Paidéia grega simboliza bem este entrelaçamento profundo entre filosofia e educação. Seu ideal da formação humana integral não poderia ser alcançado, isoladamente, só por uma delas, quer seja pela filosofia ou somente pela pedagogia.

Dois obstáculos ao diálogo são decisivos: a especialização crescente dos saberes e a mercantilização desenfreada da educação contemporânea. Em algum momento tais obstáculos se cruzam e, potencializando suas forças, terminam por encurtar cada vez mais a formação profissional dos futuros professores.

A mercantilização da educação é um fenômeno mundial. Pesquisadores do tema se queixam mundo afora - nos Estados Unidos, na Alemanha e na Inglaterra -, da colonização economicista cada vez maior que o mercado impõe à educação, especialmente ao Ensino Superior. A educação transforma-se em uma moeda de troca econômica como qualquer outra atividade financeira. Para tais pesquisadores, esta não é uma boa idéia, porque onde só a busca pelo lucro e rentabilidade predomina, a cultura e a formação humana saem danificadas, tanto do ponto de vista ético e estético como político.

O processo crescente de mercantilização da educação traz, como uma de suas conseqüências visíveis, a precarização das condições de trabalho do professor. Isso significa cada vez menos investimento em escolas, infra-estrutura, plano de carreira de professores e funcionários, e pouco incentivo nas condições objetivas à própria formação continuada dos professores. Ora, sabemos, como educadores, que o aluno só se torna efetivamente o coração da escola se for rodeado por professores bem formados e motivados, inclusive economicamente, para trabalhar com eles.

Do lado da especialização dos saberes, a universidade, a sociedade e os próprios profissionais parecem que estão se cansando da profissionalização que tem primado, décadas a fio, pela formação tecnicista, que oportuniza profundo conhecimento de algo específico, mas sem a visão do todo. Tanto a filosofia como a pedagogia não passam ilesas desta situação, tornando-se também um saber especializado.

No mundo acadêmico, a filosofia, como profissão, torna-se um nicho de discussões especializadas, herméticas, despertando interesse somente para os poucos especialistas que dominam os temas que estão em voga. A profissionalização da filosofia ocorre em detrimento de seu envolvimento social e de sua problematização da existência humana e do sentido da vida humana e da natureza no planeta.

Do lado da pedagogia, sua especialização ocorre quando se agarra ao excesso didático, compreendendo-se como saber que possui o monopólio didático na formação do professor. Neste contexto, ela deixa-se reduzir à questão “o que e como ensinar?”, desobrigando-se do questionamento sobre a finalidade da educação: “para que ensinar?”. Quanto mais a pedagogia torna-se um saber técnico, especializado na arte do “ensinara a ensinar”, mais ela parece se desrresponsabiliziar de questões relacionadas à orientação de mundo das novas gerações.

Para atender a demanda da formação de professores numa perspectiva mercadológica, a pedagogia assumiu passivamente a noção de aprendizagem baseada na linguagem das competências e habilidades. Com isso, ela abre mão do questionamento sobre a condição humana, sobre o ser humano, e sobre o mundo em que vive. Ora, como grandes pedagogos têm mostrado insistentemente, não se educa de uma maneira razoável sem a pergunta por quem é o ser humano e pelo tipo de sociedade em que vive.

Do mesmo modo ocorre na ótica da filosofia. Sua noção hermeticamente especializada dificilmente tem repercussão social, não fazendo qualquer diferença na vida das pessoas e talvez na própria vida de muitos dos profissionais que a levam adiante. Mas nem sempre a filosofia foi assim, como saber acadêmico dirigido a poucos.

Na academia platônica, por exemplo, que é considera como uma das experiências mais sólidas de formação de novas gerações de filósofos (mestres e futuros professores), além do estudo gradual da doutrina filosófica (do conteúdo filosófico), a própria filosofia era compreendida como forma de vida, importando-se com a postura e os exercícios espirituais práticos de seus integrantes. A filosofia devia ensinar a morrer e para fazê-lo deveria ensinar a viver de maneira digna, pois, para Platão (Sócrates), buscar levar uma vida boa em vida é a melhor maneira de se preparar para a morte.

Podemos depreender do contexto acima esboçado, que tanto filosofia como pedagogia, enquanto núcleos constituintes da formação de novas gerações, precisam preocupar-se, além do domínio técnico do conteúdo, também com a problematização das condições que permitem a vida humana ser bem sucedida, ou seja, feliz do ponto de vista ético. Além de saber especializado, a filosofia é forma de vida e a pedagogia orientação de mundo.


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