O desafio da razão pública

Postado por: Neuro Zambam

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John Rawls foi um dos pensadores mais importantes do Século XX e contribuiu sensivelmente para a renovação dos debates sobre Filosofia Política e do Direito. Esse pensador foi incansável defensor da democracia, dos direitos humanos, dos direitos sociais e do exercício da tolerância. Outras áreas do conhecimento, além da filosofia e do direito, como a teologia, sociologia, medicina, engenharia e outras, muito aprenderam com o pensamento deste que também foi chamado de “o gigante de Harvard”. É bem verdade que ainda tem muito a aprender com sua herança.

Minha relação com esse pensador iniciou quando, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, tive a oportunidade de frequentar o Programa de Pós Graduação – Mestrado - em Filosofia e, pelas mãos seguras de mestres, simultaneamente, humanos e destacados como Marcelo Aquino, Cirne Lima e Álvaro Valls, entre outros de igual vigor, iniciei uma incipiente descoberta da Teoria da Justiça de Rawls que marcou para sempre meus passos. Um período desafiador, encantador e repleto de condições para romper o senso comum pessoal e da formação até então razoavelmente segura, entretanto limitada à paredes efêmeras, mas, também, com inúmeras possibilidades de ampliar o horizonte de compreensão. Avaliando, penso que aproveitei e, bem orientado que fui, pude em seguida, continuar depois com esse pensamento interessante e desafiador.

Uma das mais belas contribuições de Rawls para o debate sobre os fundamentos da democracia é o conceito de Razão Pública para as democracias contemporâneas. Compartilho com os leitores neste momento dramático que o Brasil atravessa, porque precisamos construir convencimentos e razões para lutar de forma incessante por um Brasil melhor. As duas últimas gerações sonharam com uma democracia mais digna do que está em voga atualmente. A população foi traída por um conjunto de pessoas, partidos, empresas e instituições que sequer imaginaram que muitos ao longo da história tombaram como mártires gastaram a sua vida em vista do bem comum (Rawls foi um desses).

Deixo aos leitores um fragmento da herança brilhante de Rawls para os nossos dias, a sua convicção mais segura sobre razão pública. A vida de cada um é bem vivida na medida em que sua herança ultrapassa seus poucos anos. Os nossos líderes, aqueles que se apropriaram do Brasil (dos recursos, das instituições, dos valores e dos brasileiros), apenas passaram pelos anos. Ao Brasil e aos brasileiros falta uma boa razão pública para termos justiça no futuro, mesmo que distante.

“A razão pública é característica de um povo democrático: é a razão de seus cidadãos, daqueles que compartilham status de cidadania igual. O objeto dessa razão é o bem do público: aquilo que a concepção política de requer da estrutura básica das instituições da sociedade e dos objetivos e fins a que devem servir. Portanto, a razão pública é pública em três sentidos: enquanto a razão dos cidadãos em como tais, é a razão do público; seu objeto é o bem do público e as questões de justiça fundamental; e sua natureza e conceito são públicos, sendo determinados pelos ideais e princípios expressos pela concepção de justiça política da sociedade e conduzidos à vista de todos sobre essa base”. (RAWLS, John. O liberalismo político. São Paulo: Ática, 2000, p. 261).


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