100 anos de Democracia e Educação de John Dewey

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Este ano se comemora 100 anos da publicação de Democracia e Educação, do filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey (1859-1952). É uma obra clássica, que modificou significativamente a concepção contemporânea de educação e, por conseguinte, também a maneira de ensinar. Em tempos conturbados como o nosso, nada melhor do que pensar sobre a democracia.

O Programa de Pós-Graduação da Universidade de São Paulo (USP), um dos mais bem conceituados Programas do país, organizou um evento acadêmico para comemorar os 100 anos de Democracia e Educação. Convidou alguns conferencistas, entre eles, Jim Garrison, pensador americano e grande conhecedor da obra de John Dewey. O evento, que se inicia hoje, reunirá principalmente estudantes de pós-graduação que fazem suas dissertações e teses sobre filosofia e educação no pensamento de Dewey.

Também fui convidado pelos organizadores do evento, professores Maria N. C. P. Amaral e Darcício Muraro, para proferir palestra. Dediquei parte do período não letivo da UPF, especialmente nos meses de janeiro e fevereiro de 2016, para reler Democracia e Educação e algumas interpretações recentes desta obra. Ocupei-me com algumas coletâneas, revistas e livros internacionais, publicados na América e na Europa, principalmente na Alemanha.

Preparar uma palestra internacional sobre uma obra clássica demanda tempo e muita investigação sobre o estado atual de recepção da obra. Mas, Democracia e Educação justifica este esforço, pois influenciou decisivamente a tradição pedagógica contemporânea, especialmente o pensamento pedagógico brasileiro. Não podemos esquecer, neste contexto, que Anísio Teixeira, um dos grandes pedagogos brasileiros, fez seu doutorado com Dewey, nos Estados Unidos.

Considerando a importância de Democracia e Educação e a minha preparação para o referido Congresso, vou prolongar a interrupção de minhas reflexões sobre Ser e Tempo e a educação. Ocupar-me-ei, nas próximas colunas, com o comentário de Democracia e Educação, concentrando-me em algumas ideias que considero importantes para o cenário educacional atual. Mais do que nunca, o cenário educacional brasileiro exigirá, nos próximos anos, a retomada da reflexão sobre educação e democracia, escola e democracia.

Democracia e Educação, do mesmo modo como Ser e Tempo, é uma obra clássica. Embora Heidegger e Dewey são pensadores bem distintos, vivem mais ou menos na mesma época, cruzando ambos as duas grandes guerras mundiais. Eles também possuem em comum o fato de terem escrito uma grande obra clássica.

Sendo assim, como estou me ocupando com as duas obras e como procuro extrair delas reflexões que possam servir para pensar o momento em que vivemos e quem somos enquanto pensamos o momento em que vivemos, cabe problematizar inicialmente o sentido do trabalho com o texto clássico e sua relação com o momento atual: o que é uma obra clássica? Como compreendê-la da melhor forma possível? Isso precisa ser averiguado com mais cuidado, visando compreender a especificidade de Democracia e Educação, como obra clássica.

Democracia e Educação não é somente uma obra teórica. Dewey não quis somente pensar uma nova teoria da educação. Ele busca também desenvolver experiências práticas que possam transformar as relações pedagógicas de sala de aula, entre professor e aluno. Foi o grande idealizador do laboratório escolar criado na Universidade de Chicago (USA), diretamente vinculado ao Instituto que estava sob sua coordenação, naquela universidade.

Enquanto teórico da educação, procura justificar, em Democracia e Educação, o nexo estreito entre concepção de ser humano (antropologia) com o que torna possível o ser humano ser um sujeito agente (teoria da ação) e com o modo como o ser humano se educa e se deixa educar (teoria da educação). Neste contexto, põem-se várias questões: em que consiste a plasticidade da condição humana? Por que o ser humano é um ser agente? Quais os efeitos pedagógicos que resultam da plasticidade humana? O que significa para a educação o fato de o ser humano ser um sujeito ativo?

De outra parte, o tirocínio prático e democrático de Dewey, como grande pedagogo, o remete a pensar diretamente questões metodológicas e didáticas inerentes ao processo formativo educacional humano. Faz experiências práticas com seus alunos e pensa a escola como grande instituição para a formação do espírito democrático. Que princípios metodológicos ele desenvolve? Qual é sua concepção de escola? Que aspectos de suas convicções pedagógicas, tanto teóricas como metodológicas, ainda são atuais? Ou seja, o que podemos ainda aprender com Democracia e Educação?

Este conjunto de questões acima formulado orientará minhas próximas colunas. Espero conseguir enfrentá-las ao mesmo tempo em que possa subsidiar reflexivamente quem está preocupado com a educação atual, seja formal ou informal. Levando em consideração que Democracia e Educação se tornou uma obra clássica do pensamento pedagógico contemporâneo, cabe pensar sobre as razões que a tornaram uma obra clássica e qual é o sentido do clássico em geral, na formação do ser humano.


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