Razão pública e tolerância em tempos de incertezas

Postado por: Neuro Zambam

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Na semana passada trouxe para o debate o tema da razão pública, quem sabe por intuição, antecipar a não existência de uma razão pública na sociedade brasileira. O preço pago por essa falha histórica e por domínios absurdos de interesses corporativos, individualistas e doentios é alto demais para um país com uma história de 500 anos, e ainda sem a devida estabilidade política. Aliás, poucos se dão conta que a inexistência de estabilidade política está na origem de inúmeras outras estabilidades sociais e econômicas.

A atuação dos nossos representantes no domingo foi normal e coerente, assim como representa a cara da população. Aliás, a nossa cara. Parece vergonhoso que o presidente da Câmara dos Deputados tenha sido chamado de ladrão pelos seus pares. Na realidade eu também acho um absurdo. Mas, por que não? Quando falamos a verdade no âmbito mais restrito tem maior importância ou demonstra mais educação?

O retrato da realidade nos assusta, mas quem escolhe os políticos e alimenta os líderes é a população. Eles são a nossa cara. Nesse sentido, como um líder pode criticar o governo se não paga suas contas pessoais? Como pode liderar um setor uma pessoa dominada pelo fanatismo? Como pode exercer um cargo relevante que decide sobre a vida das pessoas uma pessoa que no seu passado cometeu graves atos de violência sobre seus pares? Como pode julgar o outro por corrupção se antes não consegue se desvencilhar de um passado de corrupção?

Assim, poderíamos ampliar as perguntas e as posteriores respostas. Talvez não valha a pena, porque ou assim agimos ou por esses somos liderados. Sempre é bom recordar que um líder começa a atuar nos ambientes pequenos e, com apoio e admiração dos seus iguais, evolui e alcança postos mais relevantes.

As conquistas da democracia brasileira, quando parecem mais firmes e duradouras, demonstram suas máculas e sua ignorância, representadas (apenas representadas, porque elas integram o nosso cotidiano) pelas ações do parlamento como vimos no último domingo. Pai, mãe, filhos, Deus e outros, apenas serviram para dizer de forma indireta: “Vocês, povo, não pagaram nossas campanhas e não nos dão propina, fiquem ali esperando a próxima vez de votar. Aparecerei”.

Nesse processo vale recordar o dever de tolerância, mas também e, principalmente, o dever de não tolerar a intolerância. Um famoso e destacado pensador americano nos recorda isso de forma simples e sábia.

“Argumentar que se deve permitir a coexistência pacífica de grupos e/ou indivíduos diferentes não é argumentar que se devem tolerar todas as diferenças concretas ou imagináveis.” (WALZER, Michael. Da Tolerância. Traduzido por Almiro Pizetta. São Paulo: Martins Fontes, 1999).

Em tempo: Não entendi porque nenhum deputado homenageou a sogra? Será que ela ficou cuidando as crianças? Ou, eu não vi por que não aguente tanta falta de razão pública?


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