Ação humana e educação estética em John Dewey

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O Seminário comemorativo do centenário do livro Democracia e educação, promovido pela Faculdade de Educação da USP, ocorrido na semana passada, contou com a conferência de abertura de Jim Garrison, professor da Universidade de Virginia, Estados Unidos. A conferência, intitulada Estética na experiência educacional, esclareceu interpretações distorcidas que se consolidaram equivocadamente sobre o pensamento educacional de John Dewey.

Ouvir a conferência em inglês, acompanhar a tradução simultânea e, ao mesmo tempo, fazer as anotações resumidas das ideias principais é um exercício exigente. O mesmo exercício eu realizei inúmeras vezes, ouvindo conferências proferidas em alemão, mas sem tradução simultânea, e fazendo anotações em português. Exige atenção redobrada e o desenvolvimento da capacidade de síntese.

Sentir soar a melodia da língua estrangeira no ouvido e segui-la na escrita da língua materna – este duplo exercício - tornam mais familiar o vocabulário estrangeiro, parecendo amenizar o contexto cultural distinto que está subjacente a cada idioma. Em síntese, ouvir e escrever simultaneamente é um excelente exercício de si mesmo, que força as capacidades intelectuais e o autodomínio.

Segundo a interpretação de Jim Garrison, Dewey coloca a experiência estética no centro da educação, vinculando-a com a teoria da ação. O conferencista iniciou esclarecendo que todo o ser humano possui a disposição para agir. Desta disposição brota a capacidade humana comunicativa que dá origem às diferentes práticas sócias e culturais. Deste modo, é pela ação simbólico-lingüística que realizamos nossas produções culturais, dando-lhes significado.

Na sequência, Garrison tratou da distinção entre fazer e agir, com o intuito de problematizar a definição dada por Dewey de educação como vocação. O fazer refere-se ao tipo de ação mecânica, no qual predomina a dimensão instintiva. O fazer caracteriza então a reação instintiva de adaptação do ser humano ao meio. Ligando-se à consciência espontânea, o fazer dá origem à experiência instintiva.

O agir, por sua vez, refere-se à ação inteligente, compreendida como prática comunicativa que produz significado. Ela projeta a ação humana para além da adaptação instintiva ao meio. Simboliza a capacidade criativa do ser humano que é representada fundamentalmente pela dimensão estética. O agir dá origem à experiência reflexiva que está na base da capacidade de julgamento.

Qual é o significado, para a educação, do agir comunicativo inteligente e da dimensão estética criativa? O agir estético brota da capacidade de imaginação, a qual impulsiona a própria capacidade de julgamento. De qualquer sorte, Garrison tomou a educação estética como referencia para por em questão duas interpretações equivocadas do pensamento de Dewey. Alguns autores identificam erroneamente, no contexto da primeira interpretação, a educação como vocação com a formação exclusiva de um ofício. Contudo, o sentido de vocação empregado por Dewey vai além da formação para uma determinada profissão.

Vocação refere-se à educação das múltiplas disposições humanas. Isso significa dizer, por exemplo, que a disposição mais exigida para o aperfeiçoamento de determinada profissão ganha ainda maior força, quando estiver associada ao exercício de outras disposições. Vocação quer dizer então a descoberta e formação de disposições e não simplesmente o treino de competências e habilidades.

A segunda interpretação errônea feita sobre o pensamento de Dewey consiste em reduzir a noção de experiência ao fazer educativo. Daí se origina o credo de que Dewey teria defendido a idéia do “aprender fazendo”. No entanto, se o fazer é compreendido como ação instintiva, então a formação é muito mais do que experiência mecânica. Para Garrison, a noção de educação de Dewey não comporta este reducionismo comportamentalista. Educação como formação tem a ver com o desenvolvimento das múltiplas disposições humanas e em diferentes direções. Exige força imaginativa e capacidade inventiva. Daí ser a experiência estética a referência paradigmática da educação como formação.

Então, mais apropriado não é dizer “aprender fazendo”, mas sim “aprender agindo”. Isso é possível e está de acordo com o pensamento de Dewey porque a experiência formativa é, para ele, resultado da reflexão e não da ação meramente instintiva e mecânica. Aprendemos agindo porque somos seres inteligentes, que possuímos a capacidade de acumular experiências (experiência qualitativa) e aprender com nossos próprios erros.

Em síntese, a condição humana é formada por disposições múltiplas e diferentes entre si. A educação é o amplo processo conflituoso de tornar as disposições conhecidas e utilizáveis por cada educando. A dimensão estética, movida pela força imaginativa, desperta o poder humano criativo, possibilitando a relação das disposições entre si. É a influência recíproca das múltiplas disposições entre si que permite a recriação contínua da democracia.

Ora, democracia criativa nada mais é, nestes termos, do que o resultado do trabalho artístico que possibilita o manuseio simultâneo de múltiplas disposições. Com isso se vê, claramente, a conseqüência política carregada pela educação estética: a capacidade imaginativa possibilita uma mente elástica e flexível, que possui condições de assumir criativamente diferentes formas de vida e reconhecer diferentes pontos de vista, além do seu.

Neste contexto, Dewey acredita que a experiência estética qualitativa impede a formação de mentes quadradas, baseada em esquemas rígidos e fixos de pensamento. Pela experiência estética, as novas gerações são mais bem preparadas para o exercício da democracia como forma de vida. Não foi por acaso que Jim Garrison iniciou sua conferência citando Martha Nussbaum, considerada como uma das pensadoras atuais mais vigorosas na defesa da importância das Humanidades, incluindo as Artes, na formação de mentes abertas e flexíveis.


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