O que faz uma obra ser clássica?

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Vive-se hoje o excesso na publicação de livros. O mercado editorial cresceu enormemente, caracterizando-se mais pela quantidade do que pela qualidade. É difícil identificar, na atualidade, quem seria um grande pensador, com possibilidade futura de se tornar clássico. Também, da abundância de livros publicados, é difícil encontrar obras que tenham a potencialidade de se tornarem clássicas. Mas, o que é afinal uma obra clássica? Por que Democracia e Educação de John Dewey tornou-se clássica? O que o clássico tem ainda a dizer, para os dias atuais?

Definir o que é o clássico é tarefa nada fácil e está longe de ser consensual. No âmbito acadêmico, na Universidade, cada professor (pesquisador) elege seus clássicos em sua área de estudo e, também, as razões que o levam a escolhê-los. Sem desconsiderar o caráter polêmico do tema, me agrada a definição de clássico como tudo o que permanece através do tempo. Tudo se transforma, a cultura, a vestimenta e os costumes, mas determinada obra continua ainda a dizer algo, embora muito distante no tempo .

Mas por quê referida obra permanece através dos tempos? O pensador alemão Hans-Georg Gadamer, autor de Verdade e Método, a qual é considerada também uma obra clássica da filosofia contemporânea, oferece uma resposta precisa e instigante para a pergunta acima. A obra permanece através dos tempos, mesmo quando ocorre enormes transformações sociais e culturais, porque ela possui a capacidade de continuar dialogando com novos leitores. Ou seja, permanece clássica pelo poder iminente e imediato que possui de continuar falando com as novas gerações.

É este tipo de sentimento que tenho ao ler e reler Democracia e Educação. Parece que Dewey está falando diretamente para mim e para as novas gerações. Trata conceitualmente, com precisão cirúrgica, de nossos problemas sociais e educacionais atuais. E, contudo, Democracia e Educação foi escrita há 100 anos, inicialmente para o público não especificamente brasileiro, senão americano.

O primeiro aspecto que torna a obra clássica é, portanto, sua capacidade de falar diretamente ao leitor, dizendo-lhe algo de novo. Mas, além disso, e este é o segundo aspecto, a obra tornou-se clássica porque abre a possibilidade ao leitor de dizer algo, provocando-lhe a refazer seus próprios pensamentos. O clássico diz algo, conduz a palavra e, ao mesmo tempo, provoca o leitor a se manifestar.

Quando leio Democracia e Educação, sinto-me provocado a dizer algo e, sobretudo, a rever minhas crenças e convicções educacionais. Muitos temas que Dewey trata nesta obra estimulam o leitor a refazer seus pensamentos. Dewey não cria do nada seu pensamento, pois o formula dialogando, ele mesmo, com a tradição filosófica e pedagógica passada. O que o torna original é a capacidade de reinventar a tradição, atualizando o enfoque de acordo com os problemas de sua época.

Justamente aí se encontra o terceiro aspecto que torna clássica determinada obra, sua capacidade de reinventar a tradição, de atualizá-la de acordo com a urgência dos problemas atuais. Dewey leva muito em conta o Emílio de Rousseau – a grande obra clássica da pedagogia moderna -, aprende muito com ela e assume muito de suas ideias. Mas, expõe, em Democracia e Educação, suas críticas ao pensamento de Rousseau, marcando claramente suas diferenças e afinidades com o autor de Genebra.

Também leva muito em conta a Pedagogia Geral de Johan Herbart, um dos maiores pedagogos alemães do século XIX. Aprende com sua noção de instrução educativa e com sua teoria da multiplicidade dos interesses. A herança herbartiana da multiplicidade de interesses deságua no conceito de plasticidade, o qual está na base da noção deweyana de democracia como forma de vida. Porém, Dewey se esforça para distanciar-se dos excessos intelectualistas e diretivistas da pedagogia de Herbart.

Por fim, a obra torna-se clássica porque possui riqueza de pensamentos e, por conseguinte, riqueza de conceitos, permitindo a cada geração descobri-la de maneira própria e original. Ao permitir este movimento de descoberta, a obra clássica possibilita a cada geração descobrir a si mesma. Por causa de seu vigor, a obra clássica, sobretudo, quando se torna fonte de formação do educador, potencializa a novidade que cada geração, representada na figura do educando, traz consigo quando vem ao mundo.

Deste modo, a obra clássica potencializa formativamente o conflito entre a tradição e o momento atual, permitindo sonhar alegremente com o que esta por vir. É um recurso indispensável para compreender melhor o passado do qual cada um é parte, o presente no qual vive e, ainda, lançar olhar sereno e aprofundado sobre a perspectiva futura.

Melhor, talvez do que outra produção cultural humana, a grande obra clássica permite compreender a interminável dança entre passado, presente e futuro. Tal dança constitui o Self humano, ou seja, a própria identidade humana, uma vez que ela é parte da cultura herdada e daquela em que o ser humano se encontra, ajudando-o construir a noção do momento histórico em que vive.

Em síntese, a obra clássica possui uma força poderosa que impele cada leitor a se reinventar, irradiando o meio em que vive. É este seu combustível que a torna força poderosa de formação humana. Ao terminar a leitura de uma obra clássica, depois do sentimento misto de sofrimento e prazer que o acomete ao seguir com paciência suas páginas, o leitor sente-se transformado. E transforma-se também porque aprende com os erros e limitações que a própria obra possui.

A obra é clássica porque possui o imenso poder de mexer com o leitor, deixando-o muito diferente do que era, antes de iniciar a leitura. Por ser clássica, possui força transformadora para melhor, na medida em que confronta o leitor com suas limitações. Conhecer e enfrentar suas próprias limitações na amizade reveladora de grandes companhias é uma dimensão do sofrimento humano, profundamente formativa e, por isso, muito exigente, bem aos termos do pathos formativo da tragédia grega.


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