O que faz uma obra ser clássica?

Compartilhe
Vive-se hoje o excesso na publicação de livros. O mercado editorial cresceu enormemente, caracterizando-se mais pela quantidade do que pela qualidade. É difícil identificar, na atualidade, quem seria um grande pensador, com possibilidade futura de se tornar clássico. Também, da abundância de livros publicados, é difícil encontrar obras que tenham a potencialidade de se tornarem clássicas. Mas, o que é afinal uma obra clássica? Por que Democracia e Educação de John Dewey tornou-se clássica? O que o clássico tem ainda a dizer, para os dias atuais?

Definir o que é o clássico é tarefa nada fácil e está longe de ser consensual. No âmbito acadêmico, na Universidade, cada professor (pesquisador) elege seus clássicos em sua área de estudo e, também, as razões que o levam a escolhê-los. Sem desconsiderar o caráter polêmico do tema, me agrada a definição de clássico como tudo o que permanece através do tempo. Tudo se transforma, a cultura, a vestimenta e os costumes, mas determinada obra continua ainda a dizer algo, embora muito distante no tempo .

Mas por quê referida obra permanece através dos tempos? O pensador alemão Hans-Georg Gadamer, autor de Verdade e Método, a qual é considerada também uma obra clássica da filosofia contemporânea, oferece uma resposta precisa e instigante para a pergunta acima. A obra permanece através dos tempos, mesmo quando ocorre enormes transformações sociais e culturais, porque ela possui a capacidade de continuar dialogando com novos leitores. Ou seja, permanece clássica pelo poder iminente e imediato que possui de continuar falando com as novas gerações.

É este tipo de sentimento que tenho ao ler e reler Democracia e Educação. Parece que Dewey está falando diretamente para mim e para as novas gerações. Trata conceitualmente, com precisão cirúrgica, de nossos problemas sociais e educacionais atuais. E, contudo, Democracia e Educação foi escrita há 100 anos, inicialmente para o público não especificamente brasileiro, senão americano.

O primeiro aspecto que torna a obra clássica é, portanto, sua capacidade de falar diretamente ao leitor, dizendo-lhe algo de novo. Mas, além disso, e este é o segundo aspecto, a obra tornou-se clássica porque abre a possibilidade ao leitor de dizer algo, provocando-lhe a refazer seus próprios pensamentos. O clássico diz algo, conduz a palavra e, ao mesmo tempo, provoca o leitor a se manifestar.

Quando leio Democracia e Educação, sinto-me provocado a dizer algo e, sobretudo, a rever minhas crenças e convicções educacionais. Muitos temas que Dewey trata nesta obra estimulam o leitor a refazer seus pensamentos. Dewey não cria do nada seu pensamento, pois o formula dialogando, ele mesmo, com a tradição filosófica e pedagógica passada. O que o torna original é a capacidade de reinventar a tradição, atualizando o enfoque de acordo com os problemas de sua época.

Justamente aí se encontra o terceiro aspecto que torna clássica determinada obra, sua capacidade de reinventar a tradição, de atualizá-la de acordo com a urgência dos problemas atuais. Dewey leva muito em conta o Emílio de Rousseau – a grande obra clássica da pedagogia moderna -, aprende muito com ela e assume muito de suas ideias. Mas, expõe, em Democracia e Educação, suas críticas ao pensamento de Rousseau, marcando claramente suas diferenças e afinidades com o autor de Genebra.

Também leva muito em conta a Pedagogia Geral de Johan Herbart, um dos maiores pedagogos alemães do século XIX. Aprende com sua noção de instrução educativa e com sua teoria da multiplicidade dos interesses. A herança herbartiana da multiplicidade de interesses deságua no conceito de plasticidade, o qual está na base da noção deweyana de democracia como forma de vida. Porém, Dewey se esforça para distanciar-se dos excessos intelectualistas e diretivistas da pedagogia de Herbart.

Por fim, a obra torna-se clássica porque possui riqueza de pensamentos e, por conseguinte, riqueza de conceitos, permitindo a cada geração descobri-la de maneira própria e original. Ao permitir este movimento de descoberta, a obra clássica possibilita a cada geração descobrir a si mesma. Por causa de seu vigor, a obra clássica, sobretudo, quando se torna fonte de formação do educador, potencializa a novidade que cada geração, representada na figura do educando, traz consigo quando vem ao mundo.

Deste modo, a obra clássica potencializa formativamente o conflito entre a tradição e o momento atual, permitindo sonhar alegremente com o que esta por vir. É um recurso indispensável para compreender melhor o passado do qual cada um é parte, o presente no qual vive e, ainda, lançar olhar sereno e aprofundado sobre a perspectiva futura.

Melhor, talvez do que outra produção cultural humana, a grande obra clássica permite compreender a interminável dança entre passado, presente e futuro. Tal dança constitui o Self humano, ou seja, a própria identidade humana, uma vez que ela é parte da cultura herdada e daquela em que o ser humano se encontra, ajudando-o construir a noção do momento histórico em que vive.

Em síntese, a obra clássica possui uma força poderosa que impele cada leitor a se reinventar, irradiando o meio em que vive. É este seu combustível que a torna força poderosa de formação humana. Ao terminar a leitura de uma obra clássica, depois do sentimento misto de sofrimento e prazer que o acomete ao seguir com paciência suas páginas, o leitor sente-se transformado. E transforma-se também porque aprende com os erros e limitações que a própria obra possui.

A obra é clássica porque possui o imenso poder de mexer com o leitor, deixando-o muito diferente do que era, antes de iniciar a leitura. Por ser clássica, possui força transformadora para melhor, na medida em que confronta o leitor com suas limitações. Conhecer e enfrentar suas próprias limitações na amizade reveladora de grandes companhias é uma dimensão do sofrimento humano, profundamente formativa e, por isso, muito exigente, bem aos termos do pathos formativo da tragédia grega.


Leia Também Pobreza de propostas em campanhas eleitorais Alimentos aquecidos a altas temperaturas e risco de câncer Armando, Nicanor e Itamar. Nossa Senhora Aparecida, clamamos por paz!