Porque ler os clássicos

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O que eu afirmei na coluna anterior pode ser tomado como justifica para a leitura de obras clássicas em geral. O fato de os clássicos impulsionarem a transformação de quem os lê já seria por si só motivo suficiente para tê-los em companhia. Contudo, gostaria de referir, na coluna de hoje, outras razões que motivam lê-los, levando em conta, especialmente, John Dewey e sua obra Democracia e Educação.

Italo Calvino publicou um livro com o título que tomei de empréstimo para nomear a coluna de hoje. Em Por que ler os clássicos, ele desenvolve, no capítulo introdutório, 14 razões que justificam a importância do clássico e, por conseguinte, motivam sua leitura. Dentre elas, algumas são muito elucidativas.

A mais significativa é a definição do clássico como um “livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. Esta definição de clássico transforma-se em uma motivação para lê-lo porque concebe o clássico como poder inesgotável de dizer algo novo. Quando se pensa que já sabemos tudo dele, ao lê-lo novamente, descobre-se algo que passou despercebido, em leituras anteriores.

A definição acima é precedida por outra: “Toda a releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”. A obra torna-se clássica porque impele o leitor à sua releitura. Ao relê-la, sempre fica com o gostinho de querer mais, de tê-la mais uma vez perto de si e de não sair de sua companhia. Cada leitura é como se fosse a primeira porque sempre revela coisas novas.

É comum ter ocorrido a experiência, inclusive entre grandes pensadores, de escolher uma obra clássica como companhia de cabeceira, para poder consultá-la antes de dormir. O caso paradigmático é a experiência do pensador alemão Immanuel Kant com o Emílio de Jean-Jacques Rousseau. Kant permaneceu durantes anos com esta obra ao lado de sua cama, tendo-a como leitura favorita.

Como pensador prussiano, Kant agarrava-se a uma disciplina férrea. Tudo estava devidamente cronometrado em sua vida cotidiana, sobretudo, para ter mais tempo à atividade intelectual, leitura, escrita e meditação. Reza a lenda que durante décadas fez seus passeios diários, sempre na mesma cidade (Königsberg), pelo mesmo caminho e no mesmo horário.

O único fato que foi capaz de romper com esta sua disciplina prussiana, foi a publicação do Emílio. Ao recebê-la, Kant não hesitou em interromper seu passeio matinal durante alguns dias, até ler o grande livro de Rousseau. Este é o poder do clássico, capaz de tirar da rotina o mais disciplinado entre os disciplinados!

Por fim, outra definição de Calvino: “É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Persistir com rumor significa tornar-se evidente e mostrar sua força, diferenciando-se do que está a sua volta. Consegue mostrar sua força porque entra em contradição com a atualidade presente, incompatibilizando-se com ela. Neste sentido, o clássico, por seu poder de rebeldia e resistência, auxilia a atualidade a compreender-se a si mesma, conduzindo o leitor a entender a si mesmo, enquanto parte da atualidade.

Então, é importante ler a obra clássica pelas seguintes razões: a) seu conteúdo e sua mensagem são inesgotáveis; b) possui enorme força de atração, impedindo que o leitor o abandone. É mais fácil o leitor deixar de fazer outras coisas que está habituado a fazê-lo diariamente do que perder sua companhia; c) por fim, por seu poder de resistência, provoca rumor ao incompatibilizar-se com a atualidade. O clássico possui o poder de tirar o leitor do mundo rotinizado e de fazer ver o mesmo mundo com outros olhos, numa outra perspectiva.

Repentinamente as coisas de sempre passam a ter outro sentido. A leitura de uma obra clássica possui o poder transformador, potencializando o leitor para romper com a mesmice de seu cotidiano pessoal e profissional. No caso de Democracia e Educação, possibilita educador e educando tomarem-se reciprocamente em sua condição humana. Permite colocar a pergunta pela condição humana como ponto de partida do processo educativo. Torna possível, em síntese, que educador e educando se reinventarem em sua prática pedagógica.

Deste modo, por ser a síntese da cultura anterior e por poder avançar no tempo, o clássico mantém o leitor com um pé no que há de mais significativo do passado, ao mesmo tempo que o projeta para o futuro, apontando para um mundo que ainda não existe. O poder formativo do clássico reside no fato de provocar a transformação interior de quem mantém contato com ele. Nunca somos mais os mesmos depois de tocá-lo, de permanecer em sua agradável companhia e de viajar com ele para mundos desconhecidos.


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