Minha experiência formativa com os clássicos

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Ao longo de minha experiência formativa, principalmente a partir da graduação, sempre dediquei um tempo de meus estudos para ler obras clássicas. A experiência que mais me marcou, ainda na graduação em filosofia, foi realizada na disciplina de Introdução à Filosofia. O professor Elli Benincá dedicava uma parte da referida disciplina para que os alunos lessem e comentassem uma obra literária clássica. Tínhamos que ler um romance, fazer o resumo e relatar aos colegas.

Ainda no começo da graduação, a obra clássica que mais me impressionou foi o Emílio, de Rousseau. Na disciplina Filosofia da Educação, a qual eu mesmo assumiria mais tarde, como professor universitário, fiz as primeiras anotações, de maneira mais organizada. Já na época fiquei impressionado com a força da linguagem e com o estilo literário de Rousseau.

Com linguagem poética e profundamente metafórica, Rousseau me aproximava de tal forma da realidade narrada que parecia ser eu mesmo o personagem, despertando-me a vontade de ser seu aluno fictício. Emílio deixou uma marca duradoura em mim a tal ponto que voltei constantemente a ele, dedicando uma pesquisa de nove anos, inclusive financiada pelo CNPq. É a obra que mais li e reli e, também, sobre a qual mais escrevi.

Mais tarde, já durante o mestrado e doutorado, concentrei-me em Kant, lendo incansavelmente a Crítica da Razão Pura. É uma obra bem diferente do Emílio, pois, embora também esteja recheada de metáforas, segue um estilo escolástico, mais analítico. Se Emílio impulsiona nossa capacidade imaginativa, talvez como poucas obras conseguem fazê-lo, a Crítica da Razão Pura provoca a capacidade analítica e argumentativa do leitor. Estas duas obras, cada uma a sua maneira, me desconcertaram e continuam me desconcertando, cada vez que as retomo.

Meu primeiro contato com Democracia e Educação de Dewey veio muito depois, somente quando ingressei como professor no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (PPGEDU/UPF). Portanto, já tinha atrás de mim o doutorado feito na Alemanha e o intenso contato com a filosofia da educação alemã e sua nítida influencia recebida do Emílio de Rousseau e do próprio pensamento iluminista de Kant.

Devido à influência da tradição alemã, senti-me profundamente incomodado, na primeira leitura, com a avaliação de Dewey sobre a tradição pedagógica moderna, especialmente nos capítulos V e VI de Democracia e Educação. Considerava sua postura muito seletiva e telegráfica, tendo a impressão que resumia excessivamente o pensamento de grandes autores que comentava, para, em seguida, criticá-los asperamente e, às vezes, de maneira indevida.

Democracia e Educação, assim como Emílio, oferecem referências indispensáveis para pensar de uma maneira não hierarquizada a relação entre filosofia e educação. Nestas obras encontram-se referências importantes para atualizar a filosofia da educação, impedindo sua diluição nas modernas teorias da aprendizagem, de orientação marcadamente cientificista. Possuem o traço comum de pensá-la (a filosofia da educação) como profundamente vinculada com a vida humana. Tanto para Rousseau como Dewey a própria filosofia é uma forma de vida que só possui sentido quando consegue tratar da existência humana concreta.

Ao longo destes anos, o contato direto com os clássicos exigiu-me muitas horas de leitura, que me levaram a renunciar muita coisa e a desenvolver paciência e dedicação, mas de modo algum foi um tempo perdido. Não posso negar que foi sempre uma experiência dolorosa, com muito sofrimento, principalmente pela minha decisão pessoal de buscar compreendê-los, cotejando o texto original com diferentes traduções. Também, pela força de seu pensamento, Rousseau, Kant e Dewey sempre me desconcertaram, tirando-me do prumo e fazendo-me sentir imediatamente como um leitor fraco, sucumbido diante da grandeza e complexidade de seu pensamento.

Por isso, sempre senti a necessidade de voltar a eles e, a cada releitura, me sinto mais forte, mais revigorado para compreendê-los. Quando me deparo hoje em dia novamente com estes autores e suas respectivas obras, continuo ainda me sentindo fraco e impotente diante da força de suas ideias. Mas, esforço-me em querer atualizá-los, em empregar suas ferramentas conceituais para pensar a atualidade e descobrir a mim mesmo.

Em síntese, a companhia freqüente do clássico provoca-me um sentimento ambíguo: por um lado, de fraqueza e de impotência diante da grandeza cultural, profundidade de pensamento e do encantamento das palavras que sua obra representa. Mas, por outro, sinto-me fortalecido porque justamente é esta grandeza que, uma vez passado o impacto inicial de sua leitura, leva-me a pensar sobre o mundo a ao pensá-lo a refletir sobre mim mesmo e quem está à minha volta. O encontro com os clássicos é o encontro consigo mesmo e com os outros.


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