Obras de Misericórdia corporais

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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As obras de misericórdia contribuem no processo de conversão e amadurecimento da fé, não em uma perspectiva individualista e intimista, risco dos tempos atuais (cf. DGAE 25), mas na experiência de encontro com outro. No texto anterior deste jornal, refletimos sobre as obras de misericórdia espirituais como caminhada de amadurecimento e transformação da pessoa, segundo os critérios do Reino de Deus.

O processo de amadurecimento pessoal compreende a interação com a realidade que nos cerca nas suas luzes e sombras, com sinais do Reino e também com manifestações do anti-Reino. No caso das situações negadoras do Reino de Deus, faz-se o lugar do exercício das obras de misericórdia materiais, não como alívio de consciência, mas como caminho de transformação das pessoas e da realidade. É a contribuição possível no projeto salvífico de Deus, inaugurado por Jesus (Cf. Lc 4, 16ss).

O exercício de dar de comer aos famintos; dar de beber aos sedentos; vestir os nus; acolher os peregrinos; dar assistência aos enfermos; visitar os presos e visitar os mortos, compreende a experiência de fé marcada pelo espírito samaritano, opção pessoal e intransferível de cada cristão.

As obras de misericórdia espirituais implicam na “saída” em sintonia com um processo mais amplo, a saída da Igreja para o mundo, para as periferias existenciais, onde a vida está ameaçada. Na dimensão pessoal é a saída da comodidade, do fechamento, em direção àqueles que estão com a sua existência física ameaçada pela condição social em que vivem: preso, doente, faminto, sedento, desabrigado. A pessoa está contribuindo com a Igreja, também em saída, para cuidar das feridas da alma e do corpo destas pessoas. Aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e atenção devidas (Cf. MV 15), sem desconhecer que são geradas por sistema social injusto desde a sua estrutura (EG 202).

As obras de misericórdia materiais significam o exercício da caridade transformadora na medida em que mexem com o interlocutor (necessitado) na sua condição de vida tornando-a mais digna, e também mexem com a pessoa que se desafia a ser misericordiosa, evitando que caia na indiferença diante da dor e sofrimento alheio. É um gesto de amor, respondendo ao Deus que nos amou primeiro. Tem também um caráter evangelizador profundo, segundo a compreensão de que caridade é o centro da obra evangelizadora (EG 177).

Algumas atitudes do cristão não podem ser delegadas às outras pessoas. Elas são intrínsecas ao compromisso de fé. São o caminho de resposta ao Deus da vida que nos acolhe e age com infinita misericórdia diante das nossas misérias (Lc 15, 20).

A necessidade das obras de misericórdia corporais revela ao cristão a injustiça ainda presente no mundo, que só pode ser superada pelo testemunho de que é possível outro caminho.

Ao sairmos, encontramos o irmão e, o encontrando via obras de misericórdia, encontramos Deus.


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