A companhia dos clássicos: Angustia da influência e desleitura

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Claudio A. Dalbosco – UPF/CNPq

Na coluna anterior descrevi o sentimento ambíguo que a leitura dos clássicos sempre me provocou e continua me provocando, cada vez que os revisito. Continuo me sentindo nocauteado pela profundidade do seu pensamento, ao mesmo tempo em que me esforço para compreendê-los, buscando me apropriar deles com minha própria força de pensamento.

A ambiguidade de meu sentimento está sintetizada pela multiplicidade de problemas e desafios que a relação entre leitor e texto representa. Pensar como ocorre tal relação e como se pode potencializar a figura do leitor, sem desfigurar o sentido imanente ao texto, é um dos grandes desafios assumidos pela hermenêutica filosófica, principalmente por autores como Paul Ricouer e Hans-Georg Gadamer.

No contexto da hermenêutica sempre valorizei dois princípios metodológicos indispensáveis para se compreender a relação tensional entre leitor e texto. O primeiro consiste em entregar-se ao texto, escutando o que ele tem a dizer e deixando-se impregnar pelo processo de estranhamento que ele causa. Trata-se de evitar, nesse sentido, o procedimento de simplesmente querer impor ao texto algo estabelecido previamente, ou seja, de fazê-lo responder somente às inquietações do investigador (leitor). Tratar seriamente o texto implica em respeitá-lo.

O segundo passo, decorrente do primeiro, refere-se à necessidade que o leitor possui, orientando-se pela escuta, de por questões ao texto, fazendo-o respondê-las. Na verdade, por ser clássico, o próprio texto conduz o leitor a interessar-se mais pelas perguntas do que pelas respostas. Se for um leitor atento, paciencioso e não apressado, não tardará em perceber que a profundidade da leitura do texto clássico repousa em sua capacidade de provocar novos questionamentos que não faziam parte do horizonte de compreensão inicial do leitor. É precisamente este um dos aspectos que está na base da transformação pela qual passa o leitor ao lê-lo: o texto capacita-o a perguntar.

A pergunta é o que dá vivacidade ao diálogo que o leitor mantém com o texto. Ela possibilita o espírito de abertura que faz surgir novos sentidos que estão subjacentes tanto ao texto como à própria compreensão do leitor. A pergunta faz brotar horizontes invisíveis, provocando nova consciência do real e do leitor sobre si mesmo. A leitura sem pergunta, feita com pressa e querendo chegar rapidamente ao final do texto, mantém os horizontes invisíveis encobertos. Tal leitura não toca no sentido profundo do texto e não possui força suficiente para transformar o leitor.

No âmbito da literatura, também influenciada pela hermenêutica, Harold Bloom (1993) interpretou a relação tensional entre leitor e texto, expondo de maneira surpreendente e original o sentimento do leitor diante do texto literário clássico. Neste contexto, o que ele expressa também pode servir de referência para o leitor que se depara com o texto filosófico ou pedagógico clássico. Segundo Bloom, o leitor vê-se duplamente influenciado, pela “angustia da influência” e pela “desleitura”.

Com a primeira Bloom quer mostrar o efeito hipnotizador que a força de uma grande obra literária exerce sobre o leitor, levando-o a reconhecer a profundidade do problema (e do tema) abordado pelo autor. O leitor sente-se, em um primeiro momento, como se tivesse sido nocauteado pelo autor. Cai na lona e precisa de muita força de vontade para se reerguer. O aspecto positivo do nocaute é que o leitor vê-se desacomodado, tendo que sair de sua zona de conforto.

Contudo, uma vez tendo se reerguido, o leitor contra-ataca, sendo sua resposta justamente a “desleitura”. Mas, somente o leitor forte e paciencioso consegue fazê-la. Se for apressado e menosprezar a força do texto, não consegue se levantar do nocaute sofrido. Sua tendência é abandonar o texto na primeira leitura e procurar uma literatura mais palatável, que atenda mais rapidamente seus interesses imediatos.

A “desleitura” é resultado da fortaleza do leitor; ela representa, por isso, sua capacidade interrogativa e sua vontade de querer superar o autor, buscando ir além do sentido do próprio texto. Mas, por ser paciencioso e inteligente, o leitor forte sabe que a maneira de superar dignamente o texto é respeitá-lo, antes de tudo. Deste modo, o leitor forte, com sua postura de “desleitura”, representa o tipo ideal de qualquer leitor que se reporta à tradição clássica para compreender a atualidade e a si mesmo, enquanto sujeito que interroga a atualidade.

Portanto, o que Bloom fala da obra literária clássica, da tensão entre angustia da influencia e desleitura, serve também para compreender o efeito que Democracia e Educação provoca no leitor, ao lê-la e relê-la. A angústia da influência simboliza o forte impacto que a obra exerce na elaboração do pensamento, indicando o peso e a importância da tradição intelectual na formação dos conceitos. O autor clássico penetra fundo na tradição passada, arrancando dela referências para pensar sua própria época. O leitor, acompanhando de perto este seu exercício, aprende a fazer o mesmo e, ao fazê-lo, constrói-se como sujeito, pela leitura do autor clássico.

Desleitura, por sua vez, é o efeito que a própria obra provoca no leitor atento, impulsionando-o a pensar por si mesmo. Com a leitura atenta da obra, impregna-se do estilo literário do autor e de sua forma própria de pensar. Aprende não só a desenvolver pensamentos, mas a trabalhar de modo paciencioso sobre si mesmo. Neste sentido, a leitura atenta do clássico provoca no leitor um intenso cultivo de si mesmo, que o leva a enfrentar a ambiguidade humana de sua própria condição. Faz pensá-lo duas vezes sobre suas fraquezas, potencializando suas forças construtivas interiores.

A desleitura da obra clássica proporciona, além de uma experiência intelectual consistente, também a genuína experiência formativa que leva ao vagaroso trabalho de si sobre si mesmo. Ler um clássico é, neste sentido, desfrutar da possibilidade de se reinventar a si mesmo, buscando sempre mais a humanidade que reside em si mesmo, em sua interioridade.






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