O professor e a literatura de autoajuda

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Na condição de Pesquisador Bolsista Produtividade do CNPq tenho sido solicitado para dar parecer a artigos submetidos à publicação nas Revistas Educacionais Brasileiras. Emito pareceres com frequência sobre artigos de relevância acadêmica e pertinência prática, que também envolvem o cotidiano pedagógico do professor na escola.

Um dos últimos pareceres, que dei por estes dias, foi sobre um artigo que trata da literatura de autoajuda entre professores de uma Rede Municipal do Estado de São Paulo. A pesquisa foi feita com base na metodologia qualitativa, envolvendo um universo aproximado de cinquenta professores. As perguntas dirigidas aos professores foram várias, entre elas, que livros de autoajuda leem e por que os leem?

Do resultado da pesquisa vários aspectos chamam a atenção: alguns professores revelaram não ter lido livro algum; outros permaneceram apenas na leitura de livros de autoajuda e, por fim, um número menor de professores vai além dos livros de autoajuda, ocupando-se também com obras clássicas. Não fazer nenhum tipo de leitura ou permanecer somente nos livros de autoajuda, sem fazer a devida crítica, é um dado importante que revela o nível de leitor que predomina naquela Rede Municipal pesquisada.

A preocupação aumenta se a pesquisa, embora sendo apenas uma Rede Municipal de um Estado do país, revela o perfil mais ou menos geral das escolas brasileiras, ou seja, onde há pouca leitura e quando há, limita-se, em grande parte, aos livros de autoajuda. Que perfil de professor denota este fato de pouca leitura e que significado isto trás para a educação? O que acontece dentro da escola e na sala de aula, quando o professor lê pouco ou quase nada? E, a pergunta mais importante para pensar o projeto pedagógica da escola, por que muitos professores leem pouco hoje em dia? O que está acontecendo?

Outro dado importante da pesquisa é que os professores manifestaram interesse por quatro autores, especialmente por Augusto Cury, Gabriel Chalita, Içami Tiba e Rubens Alves. O que leva os professores a ler tais autores é, segundo a pesquisa, o fato de encontrarem neles a motivação para manter a autoestima elevada. Sentem-se desvalorizados e buscam apoio (consolo) nos livros de autoajuda. Mas isto é suficiente?

As grandes incertezas e inseguranças geradas pelo mundo plural e complexo invadem a escola, gerando mudança drástica no comportamento dos professores e alunos. Se não bastasse isso, à escola e aos professores são impostas enormes exigências que se tornam muito desproporcionais em relação a sua valorização profissional e econômica e à escassez de recursos e condições de trabalho. Ou seja, o quadro educacional atual caracteriza-se, por um lado, pela alta exigência posta aos professores pelos resultados profissionais e, por outro, pelo pouco reconhecimento social e econômico que recebem de sua própria profissão.

Neste sentido, os professores estão órfãos das políticas educacionais públicas e do próprio Estado. Mas, não só deles! Também da própria gestão escolar que não oferece, na maioria das vezes, o amparo formativo necessário ao trabalho pedagógico de sala de aula. Por influências internas e externas, a escola é dominada por um individualismo assustador e autodestrutivo. Nesta situação, os professores recorrem aos livros de autoajuda. Mas, é tal recurso realmente a melhor ajuda? Não se faz necessário intensificar o papel da leitura na formação do professor e, neste contexto, apontar para os limites da própria literatura de autoajuda?

A capacidade crítica de leitura auxilia poderosamente, no ambiente escolar e universitário, à organização e planejamento dos componentes elementares do processo de ensino e aprendizagem, tais como, definição dos objetivos, seleção dos conteúdos, estratégias didáticas e na avaliação do processo pedagógico como um todo.

Se a leitura for feita sobre bons livros e se ainda tiver a paciência e o apoio intelectual necessário para ser sobre obras clássicas, então o resultado será ainda maior. O paio intelectual pode ocorrer de diferentes maneiras, porque isoladamente o enfrentamento de bons livros pode se tornar cansativo. Grupos de leitura e conserva com leitores mais experientes podem ser estratégias promissoras do apoio intelectual referido.

Deste modo, desenvolver a capacidade crítica de leitura é uma das tarefas centrais das instituições formais de ensino. É um processo lento e vagaroso que exige o envolvimento de todos, sendo, pois, um trabalho coletivo que não é alcançado só pela leitura individual dos livros de autoajuda. Não devemos esquecer que o investimento na leitura do professor é o melhor investimento para a melhoria da leitura do aluno e, por conseguinte, a melhoria da própria escola e do ensino como um todo. Não há como ensinar bem sem que aluno e professores possam ler bem.



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