O papel formativo da boa literatura de autoajuda

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Claudio A. Dalbosco UPF - CNPq

A crítica à literatura de autoajuda precisa reconhecer seus aspectos positivos na vida diária do ser humano, especialmente, do sujeito educacional, quer seja professor ou aluno. Além do efeito emocional de manter elevada sua autoestima, como indiquei na coluna anterior, a leitura de bons livros de autoajuda pode levá-lo a pensar sobre si mesmo. Do ponto de vista moral, ela pode contribuir para o fortalecimento do caráter humano. Mas, tudo depende do tipo de literatura é o modo como é trabalhada.

Se o sujeito educacional aceitar tudo o que lê, sem fazer devidamente a discriminação do que recebe, se deixará dominar pelo texto. Agindo assim, ele caracteriza-se como leitor fraco, sucumbindo diante da mensagem do texto. Isso não é um problema que se refere somente aos livros de autoajuda, considerando o perfil de leitor que predomina no mundo contemporâneo, cada vez mais submerso à sociedade da informação. Sua característica notória é a incapacidade de discriminação, que nada mais é, contemporaneamente, do que a ausência da capacidade de julgamento.

Discrimitatio era a grande reivindicação que Sêneca fazia, em suas Cartas a Lucílio, no mundo antigo, para fazer frente à stultitia. Stultus era o romano que possuía a capacidade de dispersão. Ou seja, era incapaz de se concentrar, passando rapidamente de uma sensação à outra, sem poder se fixar com mais vagar e tempo em uma delas. Talvez, a versão atual do estulto, mais sofisticada, é o analfabeto funcional; aquele que sabe ler e escrever, mas não consegue compreender o que faz, nem mesmo o significado da leitura para sua própria vida. É por isso que a leitura tende a desaparecer na vida do analfabeto funcional.

A boa literatura de autoajuda pode, sim, ser útil ao educador e educando, no ambiente escolar e universitário. Sendo assim, pode auxiliar na melhora significativa da relação entre professor e aluno. Como diz o bom adágio popular, quem está bem consigo mesmo, estará em paz também com os outros. Ou, na terminologia intelectual (foucaultiana), o cuidado dos outros depende do cuidado de si mesmo!

Contudo, é importante pensar no que significa estar bem consigo mesmo e em que termos a literatura de autoajuda contribui ou não para o sujeito por em questão seu estado de “harmonia”. O sentir-se bem é um estado de espírito que pode ter muitos significados, alguns contraditórios entre si; outros, completamente destrutivos em relação ao si mesmo (sujeito) e aos outros.

Quando vinculado à maldade humana, o sentir-se bem significa rir da desgraça alheia. O ser humano sente-se melhor, quando seu semelhante vai mal, principalmente se for seu inimigo. Deste modo, o sentir-se bem se torna destrutivo das relações humanas, porque está ligado aos sentimentos mesquinhos, como ciúme e inveja. Quando o amor próprio de cada um é atiçado na direção do ódio, tornando as paixões irascíveis, a constituição do si mesmo (self) torna-se patológica. Há romances e novelas cheios de personagens deste tipo, que agem maldosamente, do começo ao fim da trama.

De outra parte, o sentir-se bem significa, do ponto de vista moral, querer o melhor para si mesmo em respeito ao outro. Ou seja, trata-se do querer minimamente virtuoso, sensato, no qual o amor próprio assume dimensão construtiva, identificando-se com o sentimento generoso e includente. Neste caso, o estado de espírito harmônico está vincula à postura ética, entendida como forma de vida assumida pelo sujeito visando dominar seus próprios sentimentos mesquinhos, nada dignos, como inveja e ódio.

O fato é que a condição humana é constituída por esta ambiguidade, por esta disputa interna incessante entre amor e ódio e a ação humana pode deslizar rapidamente de um pólo ao outro. O ambiente social e cultural pode acentuar uma ou outra perspectiva. Sociedades altamente competitivas atiçam tendencialmente a dimensão destrutiva do amor próprio. Em contextos pedagógicos onde falta o amor generoso e includente, é comum que o sujeito educacional se torne agressivo, desconfiado e, obviamente, mais vulnerável à estupidez humana. É o caso em que a insensatez predomina nas relações humanas.

Ora, justamente neste ponto é que a literatura de autoajuda pode ajudar a fazer a diferença. Primeiro, quando, se for uma boa literatura, auxilia o leitor a dar-se conta da ambiguidade da condição humana. O reconhecimento e admissão de que nenhum ser humano é “anjo”, é um passo formativo importante. Segundo, quando tal literatura consegue propor exercícios meditativos ao leitor, provocando-lhe a enfrentar a ambiguidade de sua própria condição.

No plano filosófico, é o caso típico do dois-em-um socrático, a consciência moral de si mesmo, indicado pela filósofa alemã Hanah Arendt. A rigor, paradoxalmente, o ser humano nunca está só, mesmo estando sozinho, pois sempre possui a companhia silenciosa de si mesmo. Sempre há a possibilidade de dialogar consigo mesmo, de tornar-se exigente, moralmente, consigo mesmo. Quando a literatura de autoajuda consegue formar tal exigência no sujeito educacional, ela dá conteúdo moral à sua autoestima.


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