Educação para além da literatura de autoajuda

Postado por: Cláudio Dalbosco

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A boa literatura de autoajuda conduz à autoestima moral do sujeito educacional. Por ser moral, ela proporciona ao sujeito a compreensão de que ele só pode querer bem a si mesmo, querendo bem aos outros. Contudo, a literatura de autoajuda, mesmo aquela de melhor qualidade, possui este poder acima sugerido? Ela ajuda realmente a fortalecer o caráter e melhorar a relação dos professores com seus alunos? Ou seja, ela conduz ao questionamento ético, visando à melhora de si mesmo e de sua relação com os outros?

É pouco provável que somente a leitura individual, mesmo aquela que se concentra em bons livros, consiga provocar por si mesma uma mudança substancial na vida individual de cada um. O fortalecimento do caráter e a formação da opinião própria dependem do outro, ou seja, do trabalho coletivo.

Do mesmo modo, a literatura de autoajuda é o primeiro passo, mas não o fim da formação do leitor. É uma propedêutica à leitura e ao autoconhecimento de si. O ideal é que seja completada pela leitura dos textos clássicos. Compete ao professor, como educador, inserir seus alunos no universo da tradição cultural passada, pondo-os em diálogo com os clássicos de cada área do conhecimento humano.

Quem permanecer somente nos livros de autoajuda não conhece a si mesmo em profundidade. No caso da leitura, são os clássicos que abrem esta porta de acesso a interioridade que cada um possui, oportunizando que professor e aluno descubram-se a si mesmos.

O excesso consumista contemporâneo, aliado às formas cada vez mais tecnológicas de vida, gera um crescente individualismo. Sentindo-se esvaziado espiritualmente, cada vez mais carente de afetos e com dificuldades de estabelecer boas amizades, o ser humano contemporâneo (incluindo nele obviamente o próprio sujeito educacional) busca por meio da literatura de autoajuda dar sentido à sua vida.

Falta, portanto, o espaço público de discussão, ou seja, o trabalho coletivo de grupo como referência indispensável à construção da capacidade crítica de julgar. Considerada sob esta perspectiva, a literatura de autoajuda mostra seu limite: com foco excessivo nas emoções, negligencia a dimensão racional do ser humano, vinculada à capacidade de julgar. O sentimentalismo exagerado, sem o trabalho da crítica, encobre o real e cria falsa ilusão. O leitor é capaz de apaziguar momentaneamente suas angústias, mas não fortalece sua vontade contra as seduções consumistas contemporâneas.

Autores como Michel Foucault e, na atualidade, Roger Chartier, o qual esteve recentemente, em novembro de 2015, na Universidade de Passo Fundo (UPF), não cansam de falar, em seus livros, sobre a importância da escrita e da leitura no processo de formação do si mesmo (self). Deste modo, a capacidade crítica de leitura é uma forma genuína de exercício de si sobre si mesmo, auxiliando no fortalecimento do caráter e na formação autônoma de cada um.

Quem lê bem um bom livro, possui melhores condições de enfrentar a dispersão da sociedade da informação. O bom leitor não se dispersa mais no tempo, não borboleteia mais indefinidamente de uma informação para outra. Deixa de se interessar pela quantidade de informações, fixando-se atentamente naquelas que selecionou. Portanto, o modo de formação que nasce da leitura cuidadosa dos textos, principalmente dos clássicos, é o principal antídoto contra o borboletear cego.

As transformações no modo de ser provocadas pela leitura podem se tornar ainda mais profundas, quando a própria leitura for de bons livros e orientada pelo trabalho coletivo de grupo. O livro aproxima pessoas, encurta a distância entre formas de vida e torna familiar o que é estranho. Ele é sempre uma boa desculpa para o encontro entre seres humanos capazes de ouvir e argumentar. O livro é um fomento à discussão e ao debate e, ao dar sentido à coletividade, possibilita o crescimento individual e a formação da opinião própria.

Aprende-se muito na leitura solitária. Mas, ninguém aprende como poderia aprender somente lendo solitariamente. Potencializa sua formação, quando troca suas impressões de leitura com os outros. Que o livro faz amigos, embora pareça ser um jargão, continua sendo uma expressão de muito bom tino. Se o bom livro faz bons amigos, ele torna-se cúmplice na difícil empreitada da busca pelo bom convívio humano e social. Poderíamos imaginar o quanto nossas formas de vida, nossas práticas educativas, nossas instituições de ensino poderiam certamente ser melhores se o nosso convívio individual e social fosse mai influenciado pela companhia do bom livro?

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