A autoajuda como prática de si mesmo

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Gostaria de deixar ainda mais claro, na coluna de hoje, as razões de minha insistência sobre o tema da autoajuda. O ser humano precisa exercitar-se para buscar a preservação de sua vida e construir sua identidade (si mesmo). Quem não se exercita, fenece, corporal e espiritualmente. Há diferentes maneiras de exercitar o corpo e o espírito. Como ambos formam, na linguagem nietzschiana, a “grande razão corpo”, ou seja, uma unidade, exercitando bem um se exercita também o outro.

Como mostrou o filósofo francês contemporâneo Michel Foucault, em seus cursos tardios proferidos no Collège de France, nos últimos anos antes de sua morte, os filósofos antigos, gregos e romanos, compreenderam muito bem a filosofia como forma de vida. O cuidado de si e o exercício de si são duas formas predominantes de forma de vida.

A Hermenêutica do sujeito, obra resultante do curso de 1982, proferido dois anos antes da morte do filósofo, mostra como Sócrates reúne todas as práticas humanas de si sob a noção de cuidado de si. Por meio do diálogo, o pensador pedagogo grego provoca o auto-exame permanente de si mesmo e de seus interlocutores.

Sendo assim, no sentido socrático, a filosofia é forma dialógica de vida que conduz seus praticantes a se auto-examinarem. Sócrates concebe o auto-exame como condição da vida bem sucedida, do ponto de vista moral. Em tom quase poético, afirma que uma vida que não é examinada, não vale apena de ser vivida. O auto-exame seria para ele então a força vital do ser humano, o foco nuclear do planejamento e execução de suas ações.

A Hermenêutica do sujeito mostra também, exemplarmente, como se dá, no mundo romano, principalmente no estoicismo, a transformação do cuidado de si em exercício de si. Sêneca insiste, nas Cartas a Lucílio, com seu discípulo (Lucílio) sobre a importância de praticar diariamente vários exercícios para que o mesmo possa levar uma vida bem sucedida. Considera o exame de consciência diário como uma das práticas de si mais genuínas de descoberta de si, de formação de si mesmo.

Tudo isso desaparece no mundo contemporâneo? Obviamente que não. O ser humano contemporâneo continua lutando incessantemente pela sua preservação física e pela sua formação espiritual, do mesmo modo, e talvez mais intensamente, do que os gregos e os romanos o faziam. Contudo, a autoajuda tornou-se uma dos principais exercícios de si, uma das principais práticas de si, buscada pelo ser humano contemporâneo para formar-se a si mesmo.

O exercício de si assume na autoajuda uma de suas principais fontes de formação. Quais são as formas mais evidentes de autoajuda na sociedade digital contemporânea? A forma mais influente talvez seja os programas de talk show. Dominando os programas televisivos da atualidade, tais programas são diversificados, procurando atender múltiplas necessidades dos telespectadores, principalmente suas necessidades consumistas, da moda e da busca pela fama, para tornar-se uma celebridade, de uma hora para outra.

Há programas de talk show de caráter mais formativo, que procuram trazer questões, inclusive éticas, vinculadas à vida cotidiana das pessoas. Aliás, esta é uma condição primeira para qualquer tipo de autoajuda surtir efeito nas pessoas: o instrumento de autoajuda precisa falar a linguagem da vida diária das pessoas. De modo geral, são programas atraentes, divertidos e diversificados, que se destinam a um público previamente selecionado: a dona de casa, o adolescente, a juventude, o mais velho, etc.

No âmbito da educação, o que mais tem se sobressaído nos últimos anos é a indústria editorial de autoajuda, desde a literatura infantil, até a literatura do envelhecimento humano. Deste modo, os livros de autoajuda tratam das preocupações imediatas deste público, abrangendo questões desde como ser uma boa criança, até como envelhecer bem, de maneira saudável e ativa. Como estão vinculados à indústria editorial, tais livros, muitas vezes, dizem o que o leitor gosta de ouvir, não tratando necessariamente de questões formativas que contrariam os próprios desejos do leitor.

Agradar o leitor e não contrariar seus desejos é, portanto, uma lógica forte da indústria editorial de autoajuda. Quando segue tal direção, a literatura de autoajuda tornar-se de fato literatura de formação? Não necessariamente, porque agradar o leitor nem sempre é formativo e, talvez, não o seja na maioria das vezes, sobretudo quando tal vontade está presa aos desejos narcísicos do leitor. Para ser formativa, a literatura de autoajuda precisa convencer o leitor a querer como convém. Precisa, portanto, ser capaz de educar eticamente sua vontade.

Mas o que significa querer como convém? Significa desprender-se da ideia do leitor onipotente, que só encontra no texto aquilo que ele quer encontrar. Se a mensagem do texto contraria a vontade do leitor, ele o abandona. Mas como manter o leitor em contato com o texto, mesmo quando este o contaria? Justamente aí que entra o papel do educador como formador, contribuindo para mediar o desencontro inicial entre a vontade do leitor e a mensagem do texto.

O educador como professor ou grupo ampliado cumpre o papel indispensável de impedir pedagogicamente que o leitor fuja da mensagem do texto, quando esta toca em sua vontade narcísica ou em seus desejos de fantasia. Ora, a boa literatura de autoajuda possibilita ao leitor fazer o exercício de si sobre si mesmo, trabalhando sobre seus próprios desejos de fantasia.

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