Exercício profissional e felicidade humana

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Será que podemos saber quando alguém é feliz em sua profissão? Quando se sente realizado profissionalmente? De que felicidade e realização se tratam? Por mais que pensemos seriamente sobre estas questões, não podemos encontrar uma resposta segura e definitiva. Não podemos medir a satisfação profissional e menos ainda o nível de felicidade com a mesma precisão, por exemplo, que sabemos a ebulição da água ao atingir determinada temperatura. Isso nos incomoda, mas não há outro jeito! Felicidade e realização profissional possuem uma carga subjetiva forte e variam conforme os objetivos e interesses de cada um. Além disso, dependem das expectativas criadas socialmente para as profissões.

Podemos ancorar nossa realização profissional em diferentes perspectivas. Alguns dão-se por satisfeitos quando recheiam o bolso no exercício de sua profissão. Para outros, isso revela-se insuficiente, pois buscam algo a mais. Acreditam que a felicidade que conta é aquela que se manifesta no sorriso do paciente ou no aprendizado do educando. Além do dinheiro, sentem-se realizados quando veem sua ação promover a humanidade nos outros e em sua própria pessoa.

De uma forma ou outra, todos buscam reconhecimento social. Alguns o alicerçam no status e no prestígio, outros, também no respeito mútuo e na dignidade humana. Difícil é conciliar a busca descontrolada pelo status e pelo dinheiro com a dignidade humana, porque uma ação avarenta e arrogante termina cedo ou tarde por pisotear em alguém. A lógica perversa da ambição humana desmesurada conduz à exclusão do outro. Difícil à condição humana é encontrar o meio termo, evitando o excesso ou a falta. O excessivo é aquele que ambiciona descontroladamente, que fala e faz demais. O faltoso é o que morre por inanição.     

Na tradição filosófica, desde os tempos mais remotos, a felicidade está associada à boa ação. Vincula-se diretamente a ética: só pode ser feliz, em sentido moral, quem for capaz e estiver disposto de fazer o bem. Se é difícil saber o que significa fazer o bem, pode-se dizer, ao menos em via negativa, que fazê-lo significa não praticar o mal. Isso resolve apenas em parte o problema, porque ficamos ainda por saber o que é propriamente o mal. Mas, convenhamos que há uma diferença capital entre, por um lado, querer que alguém se arruíne naquilo que faz e, por outro, que tenha boa sorte e seja bem-sucedida na sua profissão.

Não precisamos pensar em coisas extraordinárias para definir o que significa uma pessoa ou um profissional arruinado. Ir a ruina significa perder a credibilidade, não ter mais clientes, ter que fechar o consultório ou o escritório, não poder mais entrar na sala de aula. Podemos imaginar o que isso significaria pessoal e profissionalmente para alguém envolvido nesta situação. Em síntese, “ir a ruina” significa ferir a fundo o ethós profissional e a própria ideia de dignidade humana. 

Se a ambição desmesurada ou o querer pouco são próprios à condição humana, a busca pela moderação entre os dois opostos é o núcleo da boa ação. Ser feliz significa, neste sentido moral, buscar evitar ser excessivo ou faltoso. Vê-se com isso que a felicidade no exercício profissional exige a boa moderação, ou seja, saber quando se está sendo excessivo ou quando se está em débito. O dilema humano é que não possuímos uma régua para medir os opostos, pois a moderação é dada e só pode ser busca na e pela ação e esta, a ação, não é retilínea, mas sim marcada pela contingência e transitoriedade.

Ora, mas é esta condição de precariedade da condição humana que dá sentido à necessidade da formação humana. Se todos fossem perfeitos, não precisaríamos de formação. Também é o limite da condição humana que dá sentido ao aperfeiçoamento profissional constante. Sempre se tem algo novo para aprender no exercício da profissão, tanto na experiência prática cotidiana como no aprofundamento teórico e científico.

No exercício prático cotidiano, o professor recebe sempre novos e novos alunos. Cada experiência pedagógica torna-se singular, sendo levado a refazer permanentemente seu plano de ensino e atualizar o conteúdo de sua disciplina. O perfil do aluno se modifica e a distancia do professor com as novas gerações aumenta cada vez mais, porque ele, o professor, vai envelhecendo.

Contudo, se não pode barrar o envelhecimento biológico, pode não permitir que seu espírito envelheça. Daí a importância da abertura de espírito para continuar ouvindo o novo trazido pelas novas gerações. Mas, também, a importante de se manter atualizado em relação ao conteúdo, sobre o que está acontecendo em sua volta. Precisa estar “plugado”, sabendo as tendências culturais da época, para poder compreender a si mesmo e aos seus alunos.

Em síntese, não existe um exercício profissional perfeito e uma felicidade definitiva. O bom profissional sabe bem o quanto lhe custa o exercício diário de sua profissão e a disciplina interior para alcançar seus propósitos. Tanto as seduções externas, como dinheiro e poder, como as seduções internas, vinculadas à estupidez humana, são obstáculo que precisa vencer diariamente para que possa ser um profissional moralmente bem sucedido.

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