Isolamento e solidão meditativa

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), um dos autores mais lidos na atualidade, ofereceu uma definição simples, mas profunda, da tarefa da educação. Ela consiste, segundo ele, em aprender a estar só. Mas o que ele queria dizer com isso? Dizer que toda a meta da educação é aprender estar só não significa uma negação da educação, uma vez que esta é um processo eminentemente social? Qual o sentido desta solidão atribuída por ele à educação?

Pensar a finalidade da educação como aprender a viver na solidão pode provocar certo desconforto porque na atualidade se compreende a solidão como algo negativo. Estar solitário, assim se imagina cotidianamente, significa estar alheio ao mundo e ignorante ao que acontece à sua volta. Pensa-se, e isto é o mais importante, que estar solitário significa isolar-se dos outros, estar deprimido e, portanto, indisposto para viver. Aí solidão é sinônimo de tristeza, de mal-estar e desânimo. Todos estes qualificativos representam o lado sombrio da condição humana e são obstáculos à felicidade.

Ao se pensar assim, reduz-se a solidão ao isolamento, o qual é somente uma de suas dimensões, a negativa. É bem verdade que o ser humano possui a propensão ao isolamento, a qual é acentuada pela sociedade de massa contemporânea, alicerçada na tecnologia digital, que faz estar com todo mundo se estar consigo mesmo. O isolamento, nesta forma negativa de solidão, causa a corrosão do caráter e a deteriorização das relações humanas e sociais. Isolamento é uma característica do individualismo contemporâneo, do fechar-se em si mesmo, contra a companhia do outro.

O isolamento assume a forma doentia do egoísmo e do narcisismo. O isolamento individualista é por isso a morte da comunidade, da cooperação e solidariedade social. Revela a impossibilidade humana de se comunicar, impedindo o ser humano de se realizar, mesmo que tal realização sempre seja parcial e indefinida.

Se o isolamento pode levar a destruição humana, a solidão, em sua dimensão positiva, provoca a construção humana. Ela é, por isso mesmo, uma das coisas mais difíceis de ser alcançada. A rigor, poucos querem e suportam estar sozinhos consigo mesmos, no sentido autêntico e exigente do termo. Autêntico porque o estar só consigo mesmo exige certa maturidade, apreendida na relação com os outros e consigo mesmo. Não há solidão, neste sentido, sem a experiência pessoal profunda consigo mesmo, conquistada mediante a relação com os outros. A solidão, neste sentido, tem a ver com o prestar contas a si mesmo.

É na experiência permanente que se faz com os outros, uma experiência que é sempre de diferentes perspectivas e diferentes pontos de vistas, que se aprende a ser si mesmo. Saber viver com os outros implica sempre ouvir o que eles têm a dizer e estar disposto a modificar-se, uma vez que os outros sempre têm algo a dizer que difere do que cada um já é.

Contudo, não se deve aceitar tudo o que os outros têm a dizer. Daí a importância de saber discernir entre o que se deve aceitar e o que se deve rejeitar daquilo que os outros dizem. Saber discernir é o núcleo da solidão no sentido positivo, porque exige o distanciamento necessário, a retirada da vivência imediata, para poder pensar no ocorrido, naquilo que foi dito pelos outros. Solidão é, neste sentido, retirada e repouso para meditação. É, pois, exercício de si sobre si mesmo por meio da meditação sobre o que se fez ou deixou de se fazer.

Na antiguidade, o auto-exame socrático e a discriminatio estóica eram dois modos genuínos de solidão intelectual meditativa. O autoexame como prática diária de vida leva o ser humano a pensar sobre o que faz ou deixa de fazer, avaliando consigo mesmo as conseqüências de sua ação. O que ela significa para a formação de seu caráter e a construção/destruição dos que vivem a sua volta.

A discriminatio talvez seja a singularidade mais expressiva da condição humana. É o principal recurso cognitivo e moral para que o ser humano enfrente sua própria estultícia. Saber discriminar os acontecimentos da vida nada mais é do que desenvolver a capacidade humana de julgar. Discriminar é saber julgar adequadamente. É pela capacidade de julgamento que o ser humano enfrenta sua estupidez. Por meio dela, o ser humano supera sua insensatez.  

Enfim, vê-se que a solidão, como auto-exame e capacidade de julgamento, é resultado de uma longa experiência formativa, marcada pelo ir dialógico ao encontro dos outros e pela retirada meditativa consigo mesmo. Quem é capaz de fazer este duplo movimento, de ir ao encontro dialógico com o outro e de retirar-se para o pensamento, cresce como ser humano, preparando-se melhor para o convívio entre seres humanos.

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