Espiritualidade e formação da identidade contemporânea

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Charles Taylor, pensador canadense da atualidade, torna-se referência importante para pensar o modo como a espiritualidade se constrói no mundo contemporâneo. Seu livro As fontes do Self. A construção da identidade moderna, publicado pelas Edições Loyola, é uma leitura obrigatória sobre o tema. Trata-se de obra extensa, com mais de setecentas páginas, mas com escrita clara e fluente.

Há vários aspectos desta grande obra de Taylor que auxiliam na compreensão da espiritualidade contemporânea. O primeiro deles refere-se ao vínculo entre espiritualidade e formação do Self. Tem-se aqui, primeiramente, um problema de tradução: como verter Self para o português? Não pode ser traduzido simplesmente como “eu”, porque o que se busca compreender aqui é a formação da identidade individual, a qual só ocorre na mediação com outros seres humanos, inseridos em um determinado mundo ambiente. Daí que “eu”, como primeira pessoa do singular, não dá conta da complexidade que vem expressa pelo Self. Melhor traduzi-lo por si mesmo, mantido propositalmente em itálico para acentuar tal complexidade.

O motivo de tal tradução deixa-se esclarecer pelo segundo aspecto da contribuição do livro de Taylor, a saber, o vínculo entre espiritualidade e sociedade. Ou seja, formado na tradição hegeliana –cabe lembrar, pois, que seu extenso livro sobre Hegel também se encontra publicado em português – Taylor compreende a espiritualidade como fenômeno social. Mas, o que significa isso? Significa, antes de tudo, que a formação do si mesmo só acontece na sua relação com os outros. Daí, que o si mesmo contem em sua formação a dimensão social que não é aprendida pelo emprego do pronome pessoal “eu”.

O que significa a dimensão social do si mesmo? Encontra-se, nesta questão, a pista para compreender o problema da formação da identidade moderna e contemporânea. Tal questão conduz também à importância da intersubjetividade no tratamento da tensão entre individualização e socialização. De qualquer forma, a formação da individualidade, ou seja, daquilo que cada um é ou pretende ser, está estritamente relacionado com o social, com aquilo que já se encontra no si mesmo, mas que é muito mais amplo do que o próprio si mesmo.

Isso parece ser, à primeira vista, um pensamento extremamente banal, pois é claro que o si mesmo não representa a totalidade do social e nem se constitui sem o social.Contudo, deixa de ser um pensamento banal, quando Taylor recorre à riqueza e pluralidade do conceito de identidade, inserindo-o em um horizonte, por assim dizer, pós-metafísico. Assim afirma ele, em uma das passagens de seu livro As fontes o Self: “Identidade é aquilo que nos permite definir o que é e o que não é importante para nós” (p. 47).

Decisivo, neste contexto, é que o si mesmo contemporâneo não é mais um eu substancial, um datum prévio. Ele surge, sim, como resultado de ações que são dirigidas pelos outros sobre ele e por ações dirigidas por ele mesmo, visando construir formas de conduta que o vinculam à sociedade.

Então, pela identidade, o si mesmo busca nele mesmo a fonte de doação de sentido. Esta é a característica marcante da Modernidade, que representa avanços consideráveis em relação a períodos anteriores. Ela traz consigo, contudo, riscos preocupantes, tanto do ponto de vista filosófico como especificamente pedagógico. Por isso, a crítica à Modernidade e seus projetos é necessária e indispensável. Não se pode mais almejar ser moderno como os autores do século XVIII pensavam sê-los. Mas, também não significa dizer que pensadores como Jean-Jacques Rousseau e Immanuel Kant estejam superados.

O grande saldo positivo moderno da busca pela identidade do si mesmo, liberada do datum prévio, é o surgimento da liberdade como autonomia. Possibilita a ideia, tipicamente moderna, que nos é muito familiar, de que o ser humano pode ser sujeito de sua própria história, tomando, até certo ponto, as rédeas do destino em suas próprias mãos. Liberdade, autonomia e autodeterminação são valores que qualquer sociedade que almeja ser republicana e democrática não pode abrir mão.

O risco surge quando a identidade do si mesmo se desconexa da liberdade autônoma, produzindo a própria fragmentação do si mesmo, fazendo-o viver como barata tonta, disperso no tempo e à mercê de todas as coisas. Neste estado de desintegração, o si mesmo vive somente o presente, desvinculando-se de seu passado, ao mesmo tempo em que se desinteressa pela noção de projeto (pela ideia de futuro).

Tenho a impressão que o uso abusivo dos mais diferentes dispositivos digitais acentua, na atualidade, a forma de vida dispersa e volátil, que é assumida pelo si mesmo contemporâneo. Formação para o auto-exame e para a discriminatio (capacidade de julgar por si mesmo) continua sendo ainda uma das grandes tarefas da educação, no mundo contemporâneo.

 

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