A liberdade do mercado e as relações humanas

Postado por: Israel Kujawa

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As regras do “livre” mercado tem grande força no comportamento humano e acentuam o distanciamento entre o comércio e ações de humanização. Nossa geração é marcada pelo desenvolvimento tecnológico, influenciada pelo livre mercado e pela acentuada intervenção do mesmo nas relações. No histórico de um grande número de indivíduos que nasceram neste século podem ser contabilizadas dezenas de intervenções técnicas, simples e naturalizadas, como necessárias. Uma das intervenções tecnológicas mais complexas e disseminadas como uma “escolha livre” é o nascimento por meio de uma cirurgia.

A evolução do conhecimento possibilitou uma melhora significativa nos cuidados e no desenvolvimento do indivíduo que inicia antes do nascimento. É relevante observar que o nascimento humano precisa de acompanhamentos e cuidados.  No entanto, mesmo atingindo o conjunto da sociedade, estes benefícios atendem uma parcela restrita de pessoas.  Além disto, muitas pessoas que tem acesso ao conhecimento e a tecnologia estão questionando a necessidade naturalizada de intervenções tecnológicas introduzidas no histórico de cada indivíduo antes do seu surgimento e na própria forma de nascer. 

Entre as intervenções tecnológicas em debate está a introdução do procedimento cirúrgico, denominado de cesariana, como uma opção vantajosa. Entre os questionamentos feitos, se inclui o argumento de que as facilidades imediatas aumentam a possibilidade de complicações e dependências tecnológicas posteriores. É fato que a evolução tecnológica diminuiu significativamente os efeitos colaterais para quem se submete a uma cesariana. Além disto, a abreviação do tempo de espera e a programação do nascimento podem ser consideradas aspectos que favorecem a opção. No entanto, o que se apresenta como uma facilidade para a mãe pode ser caracterizada como aumento das dificuldades na relação mãe e filho e, especialmente, no bem estar físico e psicológico de ambos.

As relações humanas de cada indivíduo tem como marcos significativos o nascimento e a morte. O livre mercado possibilitou a evolução tecnológica que deveria contribuir para que estas relações iniciem de forma mais humana e mais segura, bem como postergar qualitativamente o adiamento da morte. No entanto, as perguntas centrais apresentadas pelos pensadores vinculados a um movimento intelectual da segunda metade do século XX, conhecido como teoria crítica, continuam atuais. Se faz necessário exercitar, de forma ampla, o pensamento crítico, que é próprio do ser humano. Este exercício deve ser orientado pela diretriz que prioriza o humano em relação ao comércio e ao uso de tecnologia, especialmente no momento de nascer e de morrer.

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