Espiritualidade e sujeito exercitante

Postado por: Cláudio Dalbosco

Compartilhe

A tradição filosófica empregou duas formas exemplares, de longa duração, para compreender o ser humano. A primeira delas e, também, a que perdurou mais tempo na História da Filosofia, foi a que procurou definir a condição humana pela sua racionalidade. De acordo com a tradição grega, o específico do ser humano é o logos, o qual repousa na parte racional da alma humana. Tanto Platão como Aristóteles procuram justificar isso em sua filosofia. Na Modernidade, Descartes, como sabemos, define o ser humano como sujeito pensante.

No século XX ocorre, no âmbito da filosofia, a linguistic turn, ou seja, a guinada linguística. Neste contexto, o ser humano é compreendido, antes de tudo, com um ser linguístico, que constrói pela linguagem o sentido que atribui a si mesmo e ao mundo. A preocupação pela linguagem torna-se objeto não só da filosofia analítica, mas também da tradição hermenêutica e da própria dialética. Todos querem saber o sentido da linguagem e em que termos ela vincula ação humana e mundo. Wittgenstein, Gadamer e Habermas tornam-se autores importantes, referenciais indispensáveis para investigar o sentido filosófico da linguagem.

A definição do ser humano como animal racional fez água, entre outros motivos, porque deixou-se enclausurar cada vez mais pelo conceito metafísico de razão. Tal conceito, além de conduzir a aporias insolúveis, também fomentou formas totalitárias e excludentes de pensamento. O animal racional não deixou de mostrar seu lado perverso e, agindo como ave de rapina, não hesitou em beber o sangue de seu próprio semelhante. As experiências civilizatórias catastróficas, sobretudo, aquelas ocorridas no século XX, ensinam o quanto é necessário ser mais cauteloso em relação ao poder “libertador” da razão humana.

Do ponto de vista da linguagem, certamente se aprendeu muito com as investigações filosóficas, principalmente no que se refere à precisão conceitual e ao emprego adequado dos conceitos. As exigências da análise lógica da linguagem abrem a possibilidade de maior uso preciso do pensamento. A análise lógica exige precisão conceitual e esta educação lógica do pensamento é indispensável para compreender o mundo e a si mesmo.

Contudo, a filosofia analítica da linguagem, ao se tornar pensamento dominante no âmbito universitário mundial, não tardou por revelar o vazio semanticista e logicista no qual se enredou. Tornou-se excessivamente acadêmica, linguagem de especialistas e deixou de investigar o presente. O rigorismo lógico-linguístico tornou a filosofia incapaz de dizer algo sobre o mundo e a atualidade presente. Deixando o mundo como está, ela afastou-se da vida cotidiana e da experiência formativa humana mais ampla.

A forte suspeita em relação ao poderio da razão e da linguagem conduziram muitos autores a pensarem a condição humana de outra perspectiva. Isso justifica porque a segunda metade do século XX em diante a filosofia é marcada pela reflexão sobre diferentes teorias da ação. Neste contexto, é primeiramente pela ação que o ser humano torna-se um ser racional e linguístico.

A própria filosofia analítica sofre sua guinada pragmática e, para o Segundo Wittgenstein, linguagem é ação. Isto é, segundo ele, quando se emprega determinados atos linguísticos, o sujeito é impelido à ação e também impele outros a agirem. Quando ordeno a alguém, por exemplo, a fechar a porta, como meu ato de fala levo-o a agir, na medida em que ele fecha a porta.

Em um marco de pensamento próprio e filiando-se a uma tradição filosófica específica, Michel Foucault procura compreender a condição humana pelo poder ascético desenvolvido pela filosofia. Askésis (ascese) refere-se às diferentes formas de exercício praticadas diariamente pelo ser humano, e não só exclusivamente pelo filósofo, para dar sentido à vida.

O ser humano torna-se um sujeito racional e linguístico porque é um sujeito agente. Razão e linguagem brotam da ação humana e se implicam reciprocamente. Para Foucault, no entanto, os exercícios e as práticas de si definem o próprio conteúdo e finalidade da ação humana. Neste sentido, por ser sujeito exercitante é que o ser humano torna-se racional e linguístico. Embora as formas de exercício sejam muitas e diversificadas, as que contam realmente são aquelas com perfil ético-formativo, vinculadas às formas do bem viver, consigo mesmo e com os outros.

Sem exercitar-se diária e permanentemente, o sujeito não dá conta das intempéries da vida, não consegue organizar o seu cotidiano e, com isso, não alcança a felicidade. Deste modo, o exercício de si é forma genuína e insubstituível de formação humana.  

Leia Também Falecimento de titular de firma individual causa a extinção da execução fiscal Treinamento psicológico e o efeito no grupo A ciência como ferramenta para a sabedoria Quebra-molas são permitidos, “em casos especiais”