Espiritualidade pós-humanista

Postado por: Cláudio Dalbosco

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As reflexões que desenvolvi sobre o tema da espiritualidade deixam claro seu vínculo com a condição humana. Sem sujeito e sua relação com outros sujeitos, mediados pelo mundo ambiente, não há espiritualidade ética. Este vínculo direto da espiritualidade com o sujeito precisa ser problematizado. Não é algo evidente por si mesmo e nem possui legitimidade ética de per se.

Não se pode esquecer que em nome da soberania do sujeito se cometeu, ao longo da Modernidade e, principalmente, durante o século XX, as maiores atrocidades. Por isso, a defesa do humanismo em nome da razão e da liberdade individual não é por si só garantia alguma do respeito pelo outro e da felicidade humana. A posição racional do ser humano no centro do universo conduziu ao antropocentrismo dominador e destruidor, do próprio ser humano e do ecossistema. Grandes catástrofes ecológicas são frequentes; parte significativa da humanidade passa fome e, mesmo assim, nos mantemos indiferentes.

Em nome do humanismo alicerçado na filosofia e na religião se produziu o colonialismo cruel e excludente. Quantos índios e negros foram mortos para aumentar a riqueza do velho Continente. Esta história perversa, escrita em nome do humanismo ocidental, não pode ser esquecida, caso se pretenda reescrevê-la com outros olhos e numa outra direção. Manter viva a memória de todos aqueles que morreram injustamente é uma condição do novo humanismo.

A crítica ao humanismo ocidental moderno significa o fim do próprio humanismo? Meditar seriamente sobre esta pergunta previne contra o modismo “desconstrucionista” que tomou conta do cenário cultural do fim do século passado e que continua vivo nos primeiros anos do século XXI. Em nome da crítica exagerada ao humanismo moderno corre-se o risco de colocar na lata do lixo ideias e princípios importantes, sem os quais o lado humano da condição humana desapareceria.

Não se pode abrir mão, por exemplo, em nome da crítica exagerada à razão, da capacidade de julgar. Brotando do uso prático da razão, a ética precisa da capacidade de pensar por conta própria. O agir moral existe e pode ser diferenciado do agir não moral, porque o ser humano possui a capacidade de discernimento, o qual é dado pela capacidade de julgar. Portanto, as emoções possuem uma dimensão racional; elas são, como nos ensinou Aristóteles, uma linguagem racional.

Se não é mais aconselhável falar de um humanismo moderno, de que se falar então? O certo é que o humanismo precisa ser reinventado, do mesmo modo como a espiritualidade. Mas, não se pode fazê-lo, abrindo-se mão da noção de sujeito. Não, o sujeito não está morto! Quem morreu foi determinada concepção de sujeito, como já mostrou Foucault, e sua morte deixou vestígios positivos, os quais precisam inclusive ser retomados para a reinvenção do próprio humanismo.

Talvez se devesse falar, como sugere o pensador francês Luc Ferry, do humanismo pós-metafísico e pós-colonial. O núcleo de tal humanismo não repousaria mais no conceito de natureza humana e seus supostos atributos essenciais. Teria seu engate na historicidade e fragilidade da condição humana. Exigiria, contudo, a mudança de perspectiva, construída intelectualmente, de maneira lenta e pacienciosa, com olhar focado nas experiências humanas atuais e concretas.

Por isso, emergem perguntas decisivas, como as seguintes: que face do humano se desenha na atualidade? Quem é o ser humano do mundo global e da tecnologia digital? Que laços mantêm com o seu passado e que ideia de futuro possui? Tais perguntas são a reatualização do antigo questionamento humano sobre a origem, existência e destinação humana.  

As perguntas acima emergem da antropologia filosófica atualizada  e precisam orientar a problematização acerca do sujeito educacional contemporâneo. Continua-se ainda hoje dependente, como se era na época de Rousseau, do questionamento acerca da condição humana. Ou seja, a teoria educacional pode tratar com mais conseqüência, clareza e objetividade, a relação pedagógica entre educador e educando, compreendendo-a por meio da problematização da condição humana.

Se o sujeito não está morte, de que sujeito educacional se trata então? Quem são os professores e os alunos que estão dentro da sala de aula? O que pensam e por que pensam assim? Se a teoria educacional não quer perder o vínculo com o real concreto, precisa interessar-se por tais questões. 

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