Saúde: o dilema dos pacientes

Postado por: João Altair da Silva

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De que adianta o SUS realizar dezenas de cirurgias por dia em Passo Fundo, o mesmo sistema público se encarregar de centenas de procedimentos diariamente, se muita gente doente não consegue atendimento. A cicatriz para as famílias daqueles pacientes que saem em busca de uma consulta, de um exame, de uma cirurgia, de um atendimento melhor, muitas vezes não desaparece, nem ao menos com o tempo. Saúde é saúde, é questão primordial, atendimento deveria ter para todos e com qualidade.

Para compreender o dilema é preciso vivê-lo. Muitos leitores que, felizmente, nunca dependeram do atendimento nos postos de saúde, CAIS, nos hospitais, talvez tenham dificuldade para compreender. Refiro-me a casos práticos que acompanhei. Um casal ficou dois anos esperando uma consulta com um cirurgião pediátrico na rede municipal para uma criança de sete anos. O tempo não foi suficiente, não conseguiu agendamento. Acompanhando um paciente num CAIS dias atrás presenciei uma cena que me chamou a atenção. Os pacientes vinham chegando, o médico aproveitou um vácuo nas esperas e saiu antes de encerrar o seu horário. A chefe do CAIS telefonou a ele e fez voltá-lo ao trabalho porque mais pacientes haviam chegado. Certo que a “cara” do médico no retorno não era das melhores, mas voltou. Ponto para a chefe. Se não está contente com o salário não deveria nem der aceitado o contrato. Basta ficar pouco tempo acompanhando o martírio de algum paciente para ver as falhas no atendimento. Testemunhei um paciente sendo enviado de um CAIS para um hospital porque a pressão estava fora de qualquer radar, 15 x 24, dor no peito, e pior, do lado esquerdo. No hospital ficou das 10h às 17h, fizeram dois eletros e liberaram o paciente no final do dia, sem medir a pressão. Não sou profissional da área, mas penso que o mínimo que teria que ser feito na liberação era verificar a pressão, pois essa foi a causa do encaminhamento. Lembrei a morte de minha mãe, permaneceu na emergência também com sintomas de infarto, das 20h às 23h, mesmo assim liberaram, quando chegou em casa sofreu uma parada cardíaca, foi trazida de volta no mesmo local mas não resistiu. Se tivessem mantido em atendimento, poderia até ter morrido, mas estava no hospital na hora do infarto para receber o socorro que poderia salvá-la. E aí ouço um chefe dizer que a maioria dos atendimentos na sua emergência são desnecessários, são casos laboratoriais. Muitas vezes o médico atende o paciente sem olhar na sua cara, apenas fazendo duas ou três perguntinhas enquanto já vai descrevendo a receita. Ali na sua frente muitas vezes está uma vítima, do descaso, da indiferença.

É reconhecível o esforço que as direções dos hospitais fazem para manter essas casas em pé, deveriam receber mais recursos públicos, pois é dever constitucional do Estado garantir atendimento à saúde. Os corredores viraram leitos, tem até redes de oxigênio instaladas para ir acomodando as macas com os pacientes que vão chegando.

Tanto dinheiro que é desperdiçado com corrupção, com obras superfaturadas, gastos com secretarias desnecessárias, nos diversos níveis de governo, poderia atenuar o martírio de quem depende do atendimento público na saúde.  

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