Espiritualidade como inovação

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O conceito de inovação tomou conta da cultura contemporânea. Invadiu o mundo, não só empresarial, mas também acadêmico, tornando-se a linguagem predileta dos gestores educacionais. Materializa-se na aliança tripartite entre Estado, Empresa e Universidade. É vista como a nova face do progresso, como nova maneira de promover o desenvolvimento e, obviamente, de gerar lucro e renda. Em síntese, a inovação é a alma da espiritualidade contemporânea; quem não quer se opor ao progresso e, portanto, ao desenvolvimento econômico, deve assumir a inovação (tecnológica).

A inovação não tem a ver obviamente só com o desenvolvimento tecnológico e o crescimento econômico. Contém aspectos culturais, cognitivos e éticos mais amplos, referindo-se, em certo sentido, à capacidade criativa do ser humano, potencializada pela tecnologia contemporânea. No livro A inovação destruidora, traduzido para o português, em 2015, Luc Ferry atribui à inovação um estatuto antes de tudo antropológico, ou seja, como algo que é inerente à condição humana.

Só conseguimos sobreviver enquanto espécie, segundo o referido autor, porque nos tornamos, ao longo do tempo, mentes inventivas. Salienta, ainda, que a resolução de problemas depende da nossa capacidade criativa. Daí, então, o papel das instituições formais de ensino e, no caso específico, da pesquisa universitária, para formar mentes inventivas, com capacidade criativa.

Luc Ferry não se ilude, contudo, quanto ao vinculo estreito da linguagem da inovação com os interesses da economia global de mercado e sua ânsia gananciosa pelo maior lucro possível. Aí, ela se torna, na maioria das vezes, perversa e destruidora. Quando a inovação tecnológica assume somente esta direção, não está a serviço imediato do bem comum, com prioridade clara para resolver problemas globais sérios e urgentes, como a fome, a concentração de renda e a destruição irracional do meio ambiente.

Assumindo esta direção exclusivamente mercadológica, a inovação tecnológica denota uma forma negativa de espiritualidade, que não se soma positivamente ao processo de subjetivação, no sentido da transformação ética do sujeito sobre si mesmo. Em vez de colocar a infraestrutura socializada a serviço de tal transformação, a inovação tecnológica torna-se fonte poderosa de maior concentração de renda, aumentando ainda mais a diferença entre ricos e pobres. Neste sentido, a inovação não é inocente, tornando-se perversa e destruidora.

No âmbito acadêmico, que é o que mais me interessa, diretamente, a inovação precisa assumir uma linguagem nitidamente educacional. Mas, é possível a inovação transcender a lógica exclusiva do dinheiro e do poder, assumindo uma dimensão formativa? Há diferentes maneiras de a inovação tornar-se formação. A ideia diretriz de fundo é pensar, no âmbito universitário, a formação profissional estreitamente vinculada à formação humana. A formação humana se a formação profissional especializada torna-se apenas idealista, inoperante e sem resultados. Contudo, formação profissional especializada sem o fundo humanista, torna-se fria e calculista, fazendo desaparecer a sensibilidade e a ternura que constituem a condição.

Sem base virtuosa, o vinculo entre inovação tecnológica e formação profissional especializada aprofunda a dimensão destrutiva do amor próprio, ou seja, aprofunda a vontade de poder, a vaidade e a soberba humana. Se a capacidade inovadora é constitutiva da condição humana, para que possa assumir dimensão construtiva, ela depende – expressando-me nos termos da antropologia filosófica de Jean-Jacques Rousseau – da educação virtuosa do amor próprio.

Mas, como construir o nexo entre formação profissional e formação humana? Como concretizá-la no âmbito acadêmico, dominado pelo corporativismo e pela ausência da cultura interdisciplinar? Não é tarefa de modo algum fácil. Exige, primeiramente, em linhas gerais, uma concepção de gestão, respaldada pelo trabalho lento e vagaroso, desdobrado em políticas de gestão, que possam conduzir à formação de um “novo espírito científico”.

A inovação não é resultado de um espírito solitário. Para ser formativa ela precisa do trabalho de grupo. O laboratório, a sala de aula e o grupo de pesquisa são espaços formativos, nos quais a inovação pode se desenvolver de maneira cooperativa. O desafio aqui é, desde sempre, como conciliar os interesses individuais legítimos com a perspectiva do bem comum, a qual inclui também a perspectiva institucional na ótica republicana.

Do trabalho de gestão coletiva do conhecimento resultará, certamente, a ampliação da própria noção de inovação, como algo que não pertence exclusivamente às áreas tecnológicas. Pois, a formação de um bom profissional depende da construção do currículo interdisciplinar, que permita a contradança permanente entre diferentes áreas do conhecimento humano. A inovação que se fecha na especialidade, a rigor não é inovação, mas sim repetição do que já existe de maneira predominante no ambiente acadêmico, ou seja, a especialidade fragmentada que bloqueia qualquer possibilidade de formação do profissional com mente alargada. A especialização cega e corporativista vai na contramão da dimensão cosmopolita e republicana da globalização mundial.

Bom profissional é aquele que consegue enxergar o problema de diferentes ângulos e perspectivas e a formação interdisciplinar é um recurso indispensável para isso. O exercício interdisciplinar exige um duplo movimento: o bom domínio disciplinar, resultado do estudo paciencioso e atento sobre o conhecimento específico e o trabalho coletivo de grupo, onde o conhecimento disciplinar se amplia, abrindo-se para o olhar de outros conhecimentos. Portanto, uma inovação inventiva, e não destruidora, passa pelo trabalho dialógico de grupo, com espírito de abertura para ouvir a pluralidade de vozes que constitui o mundo do conhecimento universitário.   

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