Espiritualidade de resultados

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Deixei me orientar, em textos anteriores, por um sentido mais teórico e reflexivo de espiritualidade. Abordei-a como referência normativa, ou seja, como orientação geral à ação humana, indicando-lhe como deveria ser. Gostaria de pensá-la hoje como fenômeno social, que nasce e se desenvolve na relação entre pessoas vivendo em sociedade. Portanto, pretendo mostrar como ela se apresenta empiricamente e como ganha forma concreta na vida diária das pessoas.

O que significa, atualmente, a dimensão social da espiritualidade? Considerando que a busca pela eficiência econômica e pelo status individual (sucesso) é o que predomina no modelo de sociedade em que vivemos, a espiritualidade se transforma em espiritualidade de resultados. É invadida pelo modelo do empreendedorismo empresarial com fim exclusivamente lucrativo, curvando-se à lógica do mercado. Esta tendência geral interfere na vida diária das pessoas. Pode transformar, mesmo o cristão mais ardoroso, em um avarento convicto. Deste modo, a espiritualidade de resultados é movida, na sociedade capitalista, pela lógica do dinheiro. Ou seja, é o espírito avarento que a constitui.

A busca pela transcendência como forma de engrandecer o ser humano, de arrancá-lo de sua estupidez e estultícia, visando torná-lo melhor do ponto de vista ético, sofreu na Modernidade um processo intenso de imanência. O espírito e as preocupações espirituais do ser humano reduzem-se às ocupações com o corpo, com seus desejos imediatistas, superficiais, manipulados pelas demandas mercadológicas. Imanência significa, então, redução da espiritualidade à materialidade grosseira, fazendo-a flutuar na superfície lamacenta dos produtos mercantilizados.

Liberado das exigências éticas vinculadas às religiões e do sentido de espiritualidade como forma de vida exigente consigo mesmo e com os outros, o ser humano fica disponível para os diferentes tipos de manipulação mercadológica. O culto ao corpo, desvinculado da espiritualidade em sentido profundo – como exigência ética de si mesmo -transforma-se na nova idolatria contemporânea.

O ser humano continua movendo-se no dualismo, mas desta vez submetido à tirania do mercado (dinheiro e poder) e ao puro materialismo do corpo. Tudo o que é espiritual, é visto agora sob a ótica do corpo mercantilizado. A espiritualidade torna-se um fenômeno de superfície, assume forma do camaleão, mudando rapidamente de cor, para poder sobreviver.

Digno de nota é o modo como a espiritualidade religiosa realiza seu casamento feliz com o empreendedorismo avarento e lucrativo. A crítica do Jesus histórico aos fariseus foi um modo consequente de preservar o Templo (Igreja) como lugar de oração e não de negócios. Em atitude firme, Jesus expulsou os vendilhões do Templo.

Esta atitude de Jesus significa, traduzida para os dias de hoje, o esforço de preservar às grandes religiões mundiais, com seus respectivos Templos de oração e convivência humana, um tipo próprio e influente de espiritualidade. Por um lado, refratário à mercantilização e ao espírito avarento que toma conta das diferentes formas de vida da cultura contemporânea. Também, por outro, como força movente a favor da justiça social e da promoção humana.

A espiritualidade de resultados se baseia no espírito avarento, que, traduzindo-se na ânsia pelo dinheiro e pelo lucro fácil, é conquistado geralmente à custa dos outros. A avareza verte-se na atualidade na busca pela maximização do lucro. Por isso, desconhece a amizade autêntica e o respeito pelo outro.

O testemunho do Jesus histórico, do Verbo que se fez carne e habitou entre nós, continua sendo referência da espiritualidade que luta pela vida e a promove em abundância. Conduz, inevitavelmente, à resistência contra o espírito avarento que produz amizade interesseira e que toma o outro apenas como instrumento de seus interesses pessoais e egoístas. O espírito religioso autêntico põe-se contra a avareza capitalista sem limites. Neste caso, a religião não é um ópio do povo, mas uma forma espiritual de vida resistente a qualquer tipo de objetificação do ser humano.

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