Democracia como organização social

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Na segunda parte de seu conferência (ver minha coluna da semana passada), o professor Pedro Pagni tratou da dupla acepção de democracia na obra do pensador americano John Dewey: como organização social e como forma de vida. Mas o que significa mais precisamente esta dupla dimensão de democracia e o que pode significar para nós, hoje, enquanto leitores do pensamento de Dewey, que vivemos 100 anos depois da publicação da obra, em um contexto social, político e cultural diferente daquele? Mais ainda, que contribuição pode nos dar para pensar nossos problemas educacionais?

O enfrentamento desta questões, quando referido a uma obra clássica, como o é a Democracia e Educação, não pode ser feito exclusivamente com o propósito de responder nossas questões atuais. Se nos reportamos à tradição cultural passada somente com este intuito, não ouvimos adequadamente o que o texto clássico tem a dizer por si mesmo. Corremos o risco de instrumentalizá-lo para nossos interesses imediatos.

Mas, buscar atentamente o sentido inerente ao texto, não significa cegar-se sobre o que está acontecendo à nossa volta. Na verdade, não há como nos desfazer de quem nós somos e do mundo em que vivemos, quando lemos o texto clássico. A boa hermenêutica consiste na compreensão da tensão inesgotável que se estabelece entre leitor e texto clássico, admitindo humildemente que nenhum possui a última palavra. Deste modo, o sentido do texto sempre é redescoberto e ressignificado por novos leitores, os quais se transformam no processo de recriação do próprio texto.

Esta consideração sobre a postura hermenêutica auxilia a compreender a pluralidade do sentido de democracia pensado por Dewey, nesta sua grande obra. Ou seja, não há apenas um único sentido de democracia e nem uma única forma de vinculá-lo à educação. Quando Pedro Pagni reconstrói a dupla dimensão da democracia, tem consciência disso.

Para Dewey, a democracia como forma de organização social implica pensar na formação dos grupos sociais, na sua finalidade e no relacionamento entre si. O pensador americano tem presente, certamente inspirado pelo pedagogo alemão Johann F. Herbart, que o ser humano é movido por interesses; é a própria multiplicidade do interesse que constitui tanto a condição humana como a tessitura social. O que marca a organização social, portanto, é a existência de muitos grupos sociais, com interesses conflitantes entre si.

Dewey tem consciência que sem a regulação dos interesses conflitantes, não há como haver organização social. Pensar na regulação dos interesses conflitantes visando o bem comum é o maior desafio da política, em seu sentido ético. Mas, ela precisa de outras esferas, como o direito e a educação. Como um pensador neoiluminista, o pedagogo americano acredita no poder regulador da educação, no sentido de formar educandos aptos a negociar comunicativamente seus interesses conflitantes. Educação não tem a ver, portanto, com moldura, mas sim com formação de capacidades múltiplas que possam ser exercidas pelos educando nas mais diversas direções.

Deste modo, a democracia é um mecanismo poderoso para assegurar a negociação dos interesses conflitantes e, com isso, garantir a organicidade da vida social. Se o grupo social é um aspecto decisivo da organização social, ele adquire sentido e ganha força quando visa o bem comum. Ao formular este pensamento, Dewey atribui sentido ético à democracia, já em sua dimensão social, na medida que atribui, como finalidade primeira do grupo, não os seus interesses particulares, mas o interesse geral.

Esta compreensão do grupo social movido pelo bem comum dá origem e sustenta duas outras características da democracia como forma de organização social. Ela exige, em primeiro lugar, a existência de pontos de vistas plurais. Se nenhum grupo possui a última verdade e se seus interesses não são os únicos possíveis, então as próprias instituições sociais e, especialmente as instituições educacionais, precisam formar cidadãos capazes de viver na pluralidade. O monopólio de um grupo econômico sobre os demais é visto como uma forma imperialista antidemocrática. O sentido normativo de democracia como forma de organização social bate de frente contra o imperialismo econômico.

A segunda característica pressupõe a representação das vozes minoritárias. A organização social e política precisa dar voz a todos. A exclusão de grupos significa a prevalência de alguns interesses e a partidarização do bem público. Contudo, a participação e representação das minorias precisa ocorrer de tal modo que sua ação não se transforme na ditadura sobre a maioria. Como negociar os interesses conflitantes entre os grupos (maioritários e minoritários) é uma questão que se torna o grande desafio da organização social democrática.

Democracia tem a ver, neste âmbito, com a disposição de sair de sua própria posição e abrir-se à posição dos outros. Isso não significa abandonar por completo suas crenças e convicções, mas sim estar disposto a refazê-las por meio do convívio social conflitivo. Quem não estiver aberto para refazer suas crenças e abrir-se ao outro, ouvindo o que ele tem a dizer, não vive o espírito democrático e não está apto a assumir a democracia como forma de organização social. 

Em síntese, a democracia como organização social implica um espírito cooperativo que deve regular os interesses conflitantes dos grupos. A organização social democrática necessita do espírito cooperativo, o qual não é formado somente pela dinâmica social em curso, envolvendo as instituições sociais. O nível de formalização que ocorre no âmbito da organização social não é suficiente para formar o espírito cooperativo capaz de cimentar o convívio humano e social.

O espírito cooperativo exige um processo formativo mais profundo, que, embora se entrelaça com a organização social, possui suas especificidades. É a democracia como forma de vida que dinamiza, tornando possível, a formação do espírito cooperativo. O que significa a democracia como forma de vida?

 

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