Democracia como forma de vida

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Não é fácil compreender o que Dewey entende por democracia como forma de vida. A questão começa a se esclarecer melhor quando se tem presenta seu receio sobre a possibilidade crescente da burocratização social e do risco de formalização excessiva, inerente à democracia como forma de organização social.

Tal formalização se traduz na juridificação dos conflitos sociais e na redução das possibilidades de sua resolução delegadas somente à ordem jurídica. A democracia como forma de organização social, no nível avançado das sociedades plurais e complexas, assume, no âmbito político, a forma representativa, alicerçando-se na ordem jurídica. O risco é que a democracia representativa altamente formalizada pela esfera jurídica perca capilaridade social. É o fenômeno que vivemos atualmente, em certo sentido, da judicialização da política, sustentada pela própria partidarização do judiciário.

Ao apostar na democracia como forma de vida, Dewey está pensando num componente ético indispensável para cimentar a organização social e assegurar a prevalência do espírito cooperativo como forma de potencializar as forças de construção (política) do bem público.

A democracia representativa e o Estado de Direito que a garante não são suficientes, por si mesmos, para cimentar o espírito solidário necessária à justiça social e a garantia do bem público. Ela precisa da democracia como forma de vida. As garantias jurídicas precisam ser seguidas pelas vivências democráticas espontâneas, as quais ocorrem obviamente além dos espaços jurídicos institucionais.

Mas o que significa, afinal de contas, a democracia como forma de vida?  Democracia e Educação não desenvolve uma teoria detalhada desta definição. Tudo parece se encontrar nas entrelinhas. Pedro Pagni insistiu, em sua conferencia, para esclarecê-la, tomando seu vínculo com a experiência. Ou seja, segundo ele, ao definir democracia como forma de vida, Dewey a estava tomando como uma forma genuína de experiência humana.

Como forma de vida, a democracia é antes de tudo uma experiência ética que o sujeito faz e precisa fazer consigo mesmo. É algo que constitui seu modo de ser ao mesmo tempo que cruza a tessitura social. Não pode ser uma imposição vinda de fora, pois se for isto, torna-se uma postura autoritária que conduz às diferentes formas de servilismo, negando o próprio sentido ético de democracia.

Como forma de vida, a democracia é algo que se experimenta na prática, no relacionamento cotidiano de uns com os outros. Só se pode falar de democracia praticando democracia. A rigor, não se ensina democracia, mas se a vive. Daí que a experiência democrática pressupõe um nível de espontaneidade que não é abarcado pelo nível de formalização exigido pela democracia representativa, como carro chefe da democracia como organização social.

Viver a democracia significa valorizar espaços sociais mínimos e aparentemente insignificantes, do ponto de vista da ampla organização social, que possibilitam a vivência democrática cotidiana. Assim, é importante que no interior dos espaços sociais formais e informais se proporcione aos educandos a oportunidade de conviverem entre si, confrontando seus pontos de vistas diferentes.

Dewey é muito otimista no sentido de acreditar que na escola é possível fazer experiências democráticas. Entorno das atividades curriculares desenvolvem-se formas de vida entre educador e educandos, inclusive fora da sala de aula, que podem ser potencializadas a favor do desenvolvimento democrático. O jogo, a brincadeira e a própria arte podem se tornar mecanismos importantes para a formação da convivência entre pontos de vistas diferentes.

A arte libera um tipo de imaginação criativa que normalmente escapa ao nível de formalização exigido pela democracia como organização social. Por isso que a arte com potencial crítico carrega em si, de modo geral, um conteúdo subversivo que atordoa a ordem estabelecida. A arte ao romper com o existente estruturado, abre novos horizontes, descortinando outros mundos possíveis.

Quando Dewey fala da experiência democrática, ele não está falando obviamente só da experiência empírica, daquele tipo de experiência movida pelas sensações e percepções sensíveis. Experiência é um conceito nuclear para o pensamento filosófico e pedagógico de Dewey. Para além do sensualismo ingênuo, Dewey pensa na experiência como um processo reflexivo, como nível qualificado de reflexão. Daí sua expressão técnica “experiência qualitativa”.

Para Dewey, a experiência qualitativa singulariza a própria experiência humana. Ele lhe atribui um sentido eminentemente formativo. Em que termos? Na medida em que afirma, em Democracia e Educação, que a experiência qualitativa nada mais é do que a capacidade de aprender com a própria experiência. Tal capacidade mostrar-se no poder humano de reter da experiência aquilo que se torna mais importante para enfrentar as dificuldades de uma situação posterior.

O ser humano age e volta a agir, formando um continuam de sua experiência. A cadeia que vincula uma ação à outra pode ter caráter apenas instintivo, movida pelo espontaneísmo da ação. Contudo, a experiência torna-se qualitativa quando as ações são escadeadas entre si pelo processo reflexivo. Pensar na ação ocorrida, descartando os erros e preservando seus pontos fortes é o procedimento reflexivo que torna a ação humana inteligente. Tal procedimento possibilita o aperfeiçoamento da própria experiência.

O importante a destacar, enquanto aspecto formativo da experiência, é que esta “rememoração” dos aspectos constituintes da experiência realizada, não é apenas um ato lógico de pensamento. Uma boa experiência artística, por exemplo, pode ser muito mais eficiente para reativar a memória, retendo o aspecto significativo da experiência anterior, do que o procedimento lógico de pensar.

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