Democracia como experiência formativa

Postado por: Cláudio Dalbosco

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O vínculo entre democracia e experiência formativa é estreito. Não há democracia sem educação, ou seja, sem que as pessoas sejam formadas e se formem a si mesma no processo experiencial que realizam cotidianamente. O núcleo da experiência formativa é a reflexão, a capacidade de pensar que é inerente, como possibilidade, a todos os seres humanos, embora nem todos a exercitem. O ser humano possui a capacidade de aprender com suas próprias experiências.

Assim, o ser humano possui a capacidade inteligente de reter aspectos de suas experiências passadas, usando-os para realizar novas experiências. Nuca começa do zero e sempre aprende com os próprios erros de suas próprias experiências. O qualitativo tem a ver aqui, neste sentido, com a capacidade de reter o que é essencial, de extrair o que é significativo da multiplicidade de sentidos que constitui a experiência humana. Tal capacidade é possibilitada pela reflexão.

A democracia como forma de vida refere-se ao modo humano meditativo, o qual sempre implica retomar e avaliar as experiências feitas. Mas o que torna possível o ser humano aprender com sua própria experiência? Há na condição humana, segundo Dewey, - e aqui ele faz valer sua tese antropológica de fundo, herdada de Rousseau e Herbart -, a maleabilidade, que permite o ser humano não só agir mecanicamente, movido pelo instinto, mas também reflexivamente.

Esta maleabilidade Dewey denomina de plasticidade (plasticity). Portanto, se a experiência qualitativa depende da reflexão, esta enraíza-se na plasticidade da condição humana. Por ser um ser plástico, o ser humano torna-se capaz de aprender com suas próprias experiências. Não segue rigidamente só em uma direção; possui a elasticidade de refazer seus pensamentos, de voltar a trás e de assumir ideias que inicialmente não eram suas. Deste modo, plasticidade e educabilidade implicam-se mutuamente e estão na base de formação do espírito democrático.

Esta maneira de pensar é rejeitada por muitos dos críticos de Dewey. Independentemente disso, a democracia como forma de vida pressupõe a plasticidade da condição humana, a qual, por sua vez, imbrica-se com a educabilidade. É tal imbricação que possibilita a capacidade humana de negociar os conflitos e de conviver harmonicamente, com pontos de vista diferentes.

Se é a plasticidade da condição humana que torna possível ao ser humano desenvolver experiências formativas, no sentido qualitativo acima indicado, e se tal capacidade não é algo exclusivo do adulto, então ela também caracteriza o modo de ser da criança. Não é algo que pertence somente ao educador adulto, uma vez que também faz parte do mundo experiencial do educando.

Como “poder para desenvolver disposições”, a plasticidade torna-se o impulso da experiência formativa, possibilitando que a “imaturidade” da criança se transforme em crescimento. E, o mais importante, como reconhece Dewey, tal crescimento não é feito para ela, mas por ela mesma. Daí brota o princípio pedagógico nuclear que sustenta a teoria educacional desenvolvida por Dewey em Democracia e Educação, a saber, que todo o educando possui a capacidade de desenvolver suas próprias experiências formativas e que, na verdade, só aprende quando faz suas próprias experiências.

A capacidade de fazer suas próprias experiências não indica o isolamento e a autossuficiência do sujeito. Para Dewey, a educação é um fenômeno social já em sua origem. Ele trata disso ao longo de Democracia e Educação, especialmente no segundo capítulo da referida obra. O meio social educa ao mesmo tempo em que é constituído pela educação. As experiências formativas individuais são, ao mesmo tempo, experiências sociais, entrelaçando-se com o ambiente social constituído pela multiplicidade da experiência humana.

De outra parte, ser capaz de fazer suas próprias experiências pressupõe o princípio do autogoverno, ou seja, a capacidade do ser humano dirigir-se a si mesmo. Quando pensa na democracia como forma de vida, associando-a à plasticidade da condição humana, Dewey tem em vista, como questão educacional mais importante, que o processo formativo humano tem a ver, enquanto experiência qualitativa, com a formação de sujeitos educacionais capazes de se dirigirem a si mesmo.

Dewey é enfático sobre a importância da capacidade de dirigir-se a si mesmo porque acredita que sem tal capacidade, não há como pensar na organização social justa e igual. Democracia como forma de vida é, então, em uma de suas acepções, a exigência humana mais profunda, devido à sua condição de plasticidade, de se autodirigir em seu próprio modo de ação.

Plasticidade, educabilidade e autogoverno implicam-se mutuamente, dando origem a forma qualitativa de vida que prima pelo respeito a si mesmo e aos outros, com quem se compartilha a vivência em comum.

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