A educação como crescimento

Postado por: Cláudio Dalbosco

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No segundo capítulo de Democracia e Educação, intitulado “A educação como crescimento”, Dewey desenvolve o núcleo de sua ideia de educação. Aí aparece claramente a múltipla influência intelectual que o conduziu à tal concepção. Os três conceitos que a sustentam – plasticidade, crescimento e hábito – possuem proveniência teórica distinta.

A plasticidade remonta ao menos até o século XVIII, encontrando eco na formulação rousseauniana da perfectibilidade humana. A noção de crescimento é tributária da teoria evolucionista darwiniana e, por fim, o hábito possui sua origem no empirismo filosófico moderno. Como pensador original, Dewey não apenas assimila esta ampla tradição intelectual, mas dá nova significação pedagógica para tais conceitos, na medida em que os insere em sua teoria educacional.

O que ele entende por crescimento? Define-o inspirando-se na noção de evolução, tanto do ponto de vista ontogenético como filogenético. Para Dewey, há um desenvolvimento biológico, afetivo e intelectual na vida do ser humano. Nascemos crianças, nos tornamos adultos, envelhecemos e morremos. Admite que há percalços neste percurso porque, por exemplo, há crianças que não alcança a juventude; jovens que não chegam a idade adulta e adultos que não possuem a felicidade de envelhecer. É o fenômeno da morte que escolhe vidas sem perguntar pela idade.

Do ponto de vista filogenético, há o desenvolvimento da espécie humana, que pode torna-la cada vez melhor e resistente ao meio socionatural. Dewey admite o progresso da evolução humana, mas, depois de Darwin, não pode mais compartilhar com o evolucionismo ingênuo e ad infinitum. Por mais aperfeiçoada que a espécie possa se tornar, ela pode não ser forte suficiente para evitar, num futuro remoto, sua extinção.

De qualquer sorte, Dewey está preocupado com o momento presente, mais especificamente, como o melhoramento de cada ser humano e da espécie humana como um todo, da geração atual e das próximas gerações. Acredita que a educação democrática é um mecanismo indispensável de auto aperfeiçoamento individual e da espécie. Define, neste contexto, o crescimento como o movimento acumulado de ação até um resultado posterior. Quanto mais inteligente for este movimento, melhor será o resultado.

Do ponto de vista pedagógico, concebe a imaturidade como condição primeira do crescimento. Alerta para o fato de que a imaturidade não é algo somente negativo, no sentido de que o ser imaturo é totalmente incapaz de fazer algo. A própria noção de capacidade ou aptidão, não é só negativa, pois também assinala, do ponto de vista da formação humana, para algo positivo.

Torna-se negativa quando é reduzida a algo receptivo. Se ficar somente na receptividade, a capacidade se transforma em obediência cega, imobilizando a ação inteligente e criativa. Contudo, a capacidade quer dizer também força enquanto impulso do educando que o conduz para além do imobilismo da ação. Deixando-se moldar pela plasticidade, a capacidade é elástica, contendo a possibilidade de diferentes direções.

Deste modo, associada à noção de capacidade como força, a imaturidade significa então, positivamente, a potencialidade para se desenvolver, para ser mais do que já é. Embora, como veremos posteriormente, quando tratarmos da plasticidade da condição humana, o “ser mais” pode seguir para direções diversas. Na noção de crescimento não há, portanto, uma única direção que pode ser definida previamente, sem considerar a própria experiência do educando. É justamente sua própria experiência, em estreita relação com o meio, que vai definindo as direções e redefinindo-as permanentemente.

Tudo isto possui uma consequência pedagógica clara, principalmente, quando referida à educação infantil. Permite que se tome a criança intrinsecamente, naquilo que ela é em si mesma e não comparativamente, em relação ao que ela deve ser, pela ótica do adulto. É um erro pedagógico tomar a criança pela medida adulta, pois agindo assim, deixa-se de toma-la naquilo que ela é. Considerar a criança como criança é um princípio pedagógico da teoria educacional de Dewey que ele herda do Emílio de Rousseau.

Mas, o que significa tomar a criança intrinsecamente, em suas próprias forças (capacidades)? Como fazê-lo? A postura pedagógica do educador é importante, pois precisa criar as condições, inventar o cenário pedagógico para que o educando possa desenvolver suas próprias experiências. Ser capaz de fazer suas próprias experiências é algo indispensável para que a imaturidade se transforme em maturidade.

 

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