Interdependência humana e experiência formativa

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Ao justificar a noção de educação como crescimento, Dewey chega à compreensão da criança como um ser imaturo. Compreende a imaturidade não como falta ou ausência de algo a ser preenchido pela educação adulta, mas como possibilidade de desenvolvimento das capacidades humanas. Neste caso, imaturidade não é algo negativo, mas sim positivo, indispensável para pensar a educação humana.

A imaturidade da criança revela sua fragilidade e, com isso, sua dependência. O adulto continua sendo frágil, mas a criança o é ainda mais; o adulto é dependente, mas a dependência mostra-se na criança com maior saliência. Dewey compara a fragilidade física e dependência do bebê humano com a destreza física e a independência dos filhotes de alguns animais. Enquanto alguns filhotes já nascem correndo e comendo sozinhos, o bebê humano precisa de total proteção, em sua fase inicial. Sua dependência é visível: se não contar com a proteção adulta, não sobrevive.

Mas, segundo Dewey, o bebê humano, diferentemente do filhote animal, compensa sua total dependência inicial com sua destreza social. Nenhum filhote animal é dotado com uma equipagem de primeira ordem para o intercambio social. Portanto, a fragilidade humana é em parte superada progressivamente pela capacidade do ser humano de se socializar com outros seres humanos. Pela inteligência, pela linguagem e pelos afetos o ser humano se aproxima de outros seres humanos, cria o laço social que o torna forte, potencializando suas capacidades de resistência às intempéries postas pela natureza e pela própria vida em sociedade.

O ser humano possui capacidade sensitiva e flexível que pode torna-lo um ser cada vez mais sociável. Esta sensitividade aparece com toda intensidade na vida infantil. Nenhum adulto é capaz, como reconhece Dewey, de vibrar simpaticamente com os que estão a sua volta como a criança. Sua imaturidade é compensada pelo seu sorriso e simpatia, os quais a jogam nos braços da sociabilidade humana. Nenhum adulto razoável resiste ao sorriso de uma criança. A alegria de infância gera disputa pela sua proteção.

É neste contexto que a dependência significa mais um poder do que uma debilidade. Se a criança fosse autossuficiente, ela dispensaria a proteção adulta. Sua total independência enfraqueceria seus laços sociais. Como afirma Dewey: “Ao tornar-se mais independente, o ser humano também se torna mais autossuficiente e isso pode leva-lo ao distanciamento e à indiferença”. A dependência conduz então a criança para sua interdependência, tornando-se fonte de aprendizado não só para si mesma, mas também para o adulto que convive com ela.

Esta relação de dependência e de interdependência constitui um ponto forte da experiência formativa humana. Pela sua dependência e necessidade de proteção a criança é jogada naturalmente nos braços do adulto. Aprende desde cedo que sua interdependência é vital para seu crescimento. Sem a presença do adulto ela instintivamente sabe que não sobreviveria. Com fome, busca instintivamente o seio da mãe e quando não o encontra, se desespera porque sabe que sem o leite morreria de fome.

A interdependência é um sentimento humano que se torna formativo também para o adulto que convive com a criança. O laço humano da interdependência provoca desdobramentos pedagógicos não só ao educando, mas também ao educador. O educador sente-se responsável para garantir o sorriso da criança. Sente-se realizado ao vê-la sorrir e, ao conviver com o sorriso, torna-se ele próprio mais sensível. Sabe que não pode pensar o mundo somente pelo sorriso da criança, mas também sabe que o mundo pode ser humanamente diferente se souber incluir nele o sorriso da criança.

Também, ao se deixar orientar pela simpatia infantil, o adulto se torna mais terno e menos duro, mais elástico e menos inflexível. Ao se encantar pela simpatia do mundo infantil, o adulto deixa conscientemente desmoronar seu mundo sisudo. Pela influência da simpatia infantil, o adulto pode intensificar sua sensibilidade no relacionamento com outros adultos. Sente-se menos armado e mais espontâneo, mais aberto e menos carrancudo, recuperando a naturalidade da convivência humana.

Dewey tem presente também que a vida da criança não é só simpatia, pois ela possui angústias e frustrações. Como um ser de sensibilidade aguçada, pode incorporar facilmente em seu comportamento os vícios e a corrupção de caráter que é próprio do adulto. Daí que também é um dos papéis da educação infantil proteger a criança da corrupção do mundo adulto.

Em síntese, a noção de educação como crescimento implica compreender a natureza frágil da condição infantil e as capacidades humanas que brotam desta mesma fragilidade. Na medida que conduz para a interdependência, a fragilidade mostra como ilusória e enganosa toda a propensão humana à autossuficiência. O reconhecimento da interdependência que brota da admissão da vulnerabilidade humana é o principal antídoto contra a arrogância e prepotência humana.

Tem-se aqui, nesta ideia de educação infantil alicerçada no reconhecimento da interdependência humana, um dos pilares de formação do espírito cooperativo que constitui o ideal da democracia como forma de vida. Vê-se, deste modo, que a genuína experiência formativa infantil possui indiretamente um longo alcance político, pois contém em sua origem características da forma democrática de vida.

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