Plasticidade como educabilidade humana

Postado por: Cláudio Dalbosco

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Todos os seres humanos educam e se deixam educar. Todos falam sobre educação, o que a torna uma fato aparentemente trivial. Mas será que sabemos efetivamente de educação? Como o ser humano se educa e se deixa educar? Por que uma criança que nasce somente com suas disposições e capacidades, vai se aperfeiçoando progressivamente, tornando-se a cada momento diferente do que é? Enfim, o que torna possível a educabilidade humana?

Estes questionamentos tomam conta de Democracia e Educação. Como grande filósofo da educação, John Dewey problematiza o que parece ser trivial – o fato de que o ser humano educa e é educado – e pensa no que torna possível a educabilidade humana. Introduz, no terceiro capítulo da referida obra, o conceito de plasticidade, tomando-o como condição da educabilidade humana. Em que contexto de pensamento ocorre isto? O que significa a noção de plasticidade e como ela se vincula à educabilidade humana?

Tratar destas questões significa ao mesmo tempo compreender porque o ser humano é capaz de educar e ser educado. Significa compreender, em outros termos, porque as capacidades emergentes na criança empurram-na ao aperfeiçoamento constante e interminável. Significa compreender, em última instância, o mistério que constitui a vida humana, que torna possível ao bebê humano tornar-se adulto, envelhecer e perecer.

A criança é, para Dewey, um ser imaturo. Para aperfeiçoar-se, ou seja, para sair progressivamente de sua imaturidade, ela precisa de uma adaptabilidade específica. Se não for capaz de reagir frente as imposições do meio, não cresce. Se não tiver forças para superar os obstáculos e transpor seus próprios limites, não se desenvolve. Ora, plasticidade é a força da adaptabilidade específica que permite a criança tornar-se diferente do que ela é. Sem plasticidade não há adaptação e sem ela não há crescimento.

Para esclarecer este vínculo entre plasticidade e educabilidade, Dewey recorre à metáfora da cera. A plasticidade do estado da cera é completamente diferente da plasticidade da condição humana. Em que sentido? Enquanto a primeira só é moldada pela pressão externa, a plasticidade da condição humana possui algo interno, que resiste a pressão externa e que faz da educabilidade a tensão permanente entre pressão externa e reelaboração interna.

Deste modo, a plasticidade é a capacidade humana de adotar a forma do mundo que a rodeia, incluindo o comportamento de outros seres humanos, mas conservando sua própria inclinação. Ou seja, a plasticidade é uma espécie de metamorfose, que muda o modo de ser do educando, ao mesmo tempo em que ele mantem algo que lhe é específico.

Educabilidade é então justamente esta tensão entre o que o educando traz consigo e aquilo que ele incorpora de novo, no processo de aprendizagem. Ocorre aqui uma amalgama entre estados diferentes: o estado inicial do educando e o novo estado que é resultado de seu confronto com o meio. Mantendo-se inflexivelmente no seu estado inicial, o educando fecha os olhos para o que o cerca. Abrindo-se inteiramente ao que vem de fora, aniquila sua individualidade. A educabilidade é então um modo flexível de ser que se abre ao que vem de fora preservando o que lhe é próprio.

A plasticidade como educabilidade contem, como reconhece o próprio Dewey, algo mais profundo. Ela é a capacidade de aprender com a experiência, pressupondo, enquanto tal, o poder de desenvolver disposições. Deste modo, educabilidade é a capacidade humana de aprender com as experiências. A experiência não é uma mera repetição. Cada vez que a faz, o ser humano a modifica. Quando é acompanhada pela reflexão, a experiência conserva algo significativo da experiência anterior, inserindo-o no contexto da nova ação. Por isso, experiência inteligente não é mera repetição, mas é sempre criação ou reinvenção de algo já ocorrido. É este aspecto inteligente da experiência humana que, como veremos na próxima coluna, permite compreender o hábito como expressão do crescimento.

Mas o que torna possível a plasticidade da condição humana que a faz traduzir-se em capacidade de aprendizagem? Dewey recorre em grande parte a um argumento de natureza biológica. Por ter uma carga instintiva infinitamente inferior aos outros animais, o bebê humano compensa esta fragilidade pelo desenvolvimento intelectual. Como afirma Dewey, “a criança pequena possui a vantagem da multiplicidade das reações instintivas ensaiadas e as experiências que as acompanha”. Nunca toma um ato como dado e, além disso, aprende a encontrar alternativas, fazendo combinações diversas.

Multiplicidade de reações, percepção da incidência de vários fatores e possibilidade de combinações diversas constitui a plasticidade da ação humana que torna possível ao ser humano adquirir o hábito de aprender e, mais interessante ainda, de aprender a aprender. Por não possui uma determinação instintiva rígida, pode variar suas reações para enfrentar os obstáculos que se põe ao seu caminho. Depois de sucessivos fracassos, disponibiliza outros recursos para atingir os fins almejados. Neste processo, percebe a influência de vários fatores, tornando cada vez mais inteligente sua própria ação.

Este é, em síntese, o processo da plasticidade como educabilidade. A educação consiste em preparar o bebê humano frágil a fazer uso cada vez mais aperfeiçoado de suas próprias disposições. Quanto mais for conduzido a acionar seu aparato intelectual, mais inteligente torna suas reações.  

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