Mito e história

Postado por: José Ernani Almeida

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Os gregos foram os responsáveis pelo rompimento com a concepção mitopoéica do Oriente Próximo. Após um período inicial de pensamento mítico, passaram a dar ênfase a razão, o que representou um momento decisivo para a civilização humana. Entre nós, entretanto, o mito, em alguns segmentos, continua muito forte.

É o que acontece a cada Semana Farroupilha em que os folcloristas substituem os historiadores, para cultuar o civismo tradicionalista e minimizar o fato de que o movimento de 1835 nada teve de libertário. E ai de quem contrarie o dogmatismo gaudério. Acreditam os tradicionalistas que os farroupilhas foram idealistas, abolicionistas e republicanos desde sempre. Não aceitam, mesmo quando a história registra, que outras rebeliões brasileiras, como a Cabanagem no Pará, por exemplo, foi mais progressista e ousou ir aonde os farroupilhas não foram por impossibilidade ideológica. A grande maioria da desconhece sobre o que aconteceu entre 1835 e 1845.

Talvez conheça nomes e fatos pontuais, incompletos, equivocados reconstruídos pela narrativa mítica e midiática. Assim, o mito vale mais do que a história. Quando se diz que foi uma guerra de fazendeiros, de proprietários, das elites os mais apaixonados ficam indignados e furiosos. Os tradicionalistas não admitem heróis imperfeitos. A mídia nativa muito menos. Entre o mito e a história, fica-se com o mito. A verdade às vezes é dura e desilude. O mito leva ao encantamento. O folclore inventa. A história mostra a verdade.

Como somos um país que gosta de mentiras, o mito prevalece. Há uma megaoperação da apologia ao gauchismo. O vocábulo exclamativo “tchê” passa a ser uma imposição. Impera a fanfarra exagerada dos gaudérios urbanos de butique. Escolas induzem os alunos a se fantasiar. O mercado publicitário lucra com a conveniência comercial da data. Autoridades se pilcham para se adequar ao ambiente dos CTGs.

A mídia estimula o “orgulho de ser gaúcho”. Algo muito delicado: Remete à ideia de uma etnia superior, tese perigosa que o passado já nos mostrou o quão danosa pode  ser para todos os outros. Os tradicionalistas colocam-se como guardiões de um pretenso Rio Grande tradicional, usado artifícios das construções das nações étnicas em uma região eminentemente mestiça.

Assim, ficamos com duas revoluções farroupilhas: uma, estudada nas universidades que mostra a infâmia de Porongos, não aceita o argumento simplório de que os farroupilhas agiram de acordo com os valores da época, que com seu lema  “liberdade, igualdade e humanidade”, venderam negros para se financiar, que foram indenizados pelo Império com verbas secretas e brigaram pelo dinheiro, que houve muita corrupção.

 Esta é menos grandiosa e heroica. A outra é a comemorada na mídia, nos CTGs e nos acampamentos, onde folcloristas sufocam os historiadores, prevalecendo o mito.

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